quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Elisa Lucinda em “Parem de Falar Mal da Rotina”


Há dez anos Elisa Lucinda colocou nos palcos uma das produções mais compatíveis com o paladar do público, “Parem de Falar Mal da Rotina”, em cartaz no Teatro Vivo, é um dos espetáculos que mais merecem aplausos nos ultimos tempos. Com direção e roteiro da própria atriz, Elisa utiliza a voz para declamar seus poemas mais tácitos e verossímeis, além de aproximar a plateia da própria realidade.

O espetáculo, que extravasa o tempo comum de peças de teatro, passa por uma intimista relação entre o público e a atriz. Não há texto de escritor, há palavras de um cotidiano, frases cômicas de uma mulher sábia, poemas aquecidos à valentia de uma afro expressiva e não acomodada aos seus direitos. Elisa não pincela por temas, ela vai além do que os limites cravam na sociedade, “Parem de Falar Mal da Rotina” expõe as verdades aos sorrisos dos espectadores de suas próprias histórias.

A peça é uma inspiração dos livros de Elisa, “O Semelhante”, “Eu Te Amo e suas Estreias” e “A Fúria da Beleza”, que resultou num banho de palavras despejadas à bem temperada iluminação que pontua os assuntos ditos pela personagem. Na verdade Elisa não faz uma personagem, seu olhar, sorriso, lágrimas, dor e amor saem do coração brechó da própria atriz. Cada história nasce do observatório de Elisa, das andanças de uma poeta que lhe faz escrever a cara do brasileiro, os costumes mundanos e as críticas mais do que sociais, sociáveis. Sim, pois o humor do espetáculo leva a plateia ao palco e lança ao público suas verdades, o jeito preconceituoso de cada um, os orgulhos, a corrupção e a vaidade.

“Parem de Falar Mal da Rotina” esmiúça os cárceres que celam o cotidiano, captam em uma só mulher e em suas observações os comportamentos do ser humano, tudo com uma comicidade incrível, que eleva Elisa Lucinda à catarse artística de sua história na dramaturgia. O cenário é a própria casa. O banho, que acorda o espetáculo, já traz a atriz nua ao palco, transformando o trabalho de interpretação ainda mais excepcional. Ela fica à vontade e aproveita o espaço que o texto lhe promove para visitar cada ponto do cenário, quando critíca os padrões, que não deveriam ser padrões, as hipocrisias e, como o título da peça diz, a rotina que é de cada um de nós.

No texto não há lacuna, as linhas do script são passadas pelas agulhas afiadas regidas pela voz grauda de Elisa, que salienta com poemas e costura com canções que libertam o roteiro. A atriz tem a vêemencia vocal que abrange a mistura de mpb, samba, bossa e jazz num ritmo batucado por seu próprio timbre. Enfim, o espetáculo já foi até chamado, por espectadores, de uma missa da realidade brasileira. Isso resume tudo.

A peça “Parem de Falar Mal da Rotina” é um impecável trabalho da multi Elisa Lucinda, em cartaz no respeitoso Teatro Vivo, em São Paulo. A temporada é curta e apresentada aos sábados às 21h e domingo às 19h. Os ingressos custam R$ 50,0 e podem ser comprados pela internet no Ingresso Rápido, ou na bilheteria do teatro. O espetáculo é patrocinado pelo Vivo Encena.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Beatriz Segall e Herson Capri em “Conversando com Mamãe”


A capital paulista recebe mais uma saborosa produção de Sandro Chain, a comédia “Conversando com Mamãe”, longa do argentino Santiago Carlos Oves, com a versão teatral de Jordi Galceran, tradução de Pedro Freire e a leve e precisa direção de Susana Garcia. O roteiro é sensível e cômico, capaz de emocionar com muito humor.

Beatriz Segall dá vida à graciosa mãe do espetáculo, com fantástica interpretação e um incrível trabalho de cenas ao lado de Herson Capri, que vive o filho Jaime. O roteiro leva o público ao palco, retrata o ser materno que há em toda mãe e as verdadeiras características de um filho, permitindo-nos a imediata identificação. Jaime era um homem de negócios, frustrado pela crise economica tenta salvar as finanças idealizando a venda do apartamento em que mora sua mãe, desde aí começa a confusão familiar contracenada entre dois personagens. A grande implicancia da irredutível mãe é com a sogra de seu filho, com quem faz inúmeras piadas e arrebata a graça do público. Diversos assuntos familiares são postos à cheque no espetáculo, enquanto Jaime é silenciado pelas histórias da clássica mamãe, mas que também não deixa de lado o marcante perfil irreverente.

O texto é simplório, não emplaca nenhum clímax, porém torna-se próximo ao público enquanto revela a intensa relação entre mãe e filho, além de mostrar a estupenda comicidade de Beatriz, facilmente dirigida por Susana Garcia. É fácil levar ao gosto do público uma senhora simpática, simples, sensível e nada puritana, e isso é a madura inteligência deste roteiro. Capri banha-se da sabedoria cênica de sua companheira de palco, e também mostra o versátil e firme ator escolhido categoricamente para o papel.

Paulo César Medeiros é responsável pela arte moderna da luz, vestindo o palco com cores simples e tons pontuais para as cenas. O cenário de Marcos Flaksman retrata ligeiramente a classe social que torna mais simples a relação entre os personagens, e que faz o público sentir-se em casa. Kalma Murtinho é a figurinista das trocas que regam o roteiro com total harmonia. A sensível trilha sonora de Alexandre Elias contempla ainda mais a direção de Susana, que rege este grupo compatível ao seu brilhante trabalho.

Os atores demonstram perfeita sintonia, necessária para a relação proposta pelo texto. Os movimentos, tons de voz e a concentração dramática de Beatriz e Capri vigoram o espetáculo com a bela e respeitosa construção do humor. As cenas ganham sentido, enquanto o roteiro desenrola-se pela sabedoria artística de uma das melhores duplas em cartaz atualmente. Cada gesto e fala aproximam o público para uma realidade retratada pelo espelho que é “Conversando com Mamãe”.

A peça está em cartaz no Teatro Folha, em São Paulo, sob a realização da Chaim Produções e Capri Produções, com uma folgada e disputada temporada até 18 de dezembro. O preço para sextas às 21h30 é de R$ 50,0 e R$ 60,0. E aos sábados às 20h e 22h e domingos às 19h30 é de R$ 60,0 e R$ 70,0. Os ingressos são vendidos pela internet, no Ingresso.com e na bilheteria do teatro. “Conversando com Mamãe” é patrocinado pelo Banco Volkswagen.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Ary Toledo a todo vapor, de volta à São Paulo


Ary Toledo está em cartaz no Teatro Silvio Romero, em São Paulo, com suas anedotas e a interpretação de um veterano garimpeiro do humor. O artista arrebata gargalhadas do público, que já espera por sua irreverência e um dos melhores timings da história do teatro brasileiro.

O espetáculo conta com diversas piadas sobre sogras, português, política e a criatividade do brasileiro, além de cutucar os temas mais polêmicos de forma cômica e sem nenhuma censura. Ary aproveita sua experiência para banhar o palco com seu espaço cênico, as vozes e centenas de interpretações emitidas pelo ator engrandecem sua forma única de fazer humor.

Ary é da época em que se enfrentava o AI-5, e de forma peculiar contava piadas que atacavam diretamente o ato. Ele foi preso, mas nunca recriminado por sua arte. Apesar do apelo sexual que seus roteiros seguem, o que lhe caracterizou um piadista de anedotas, Ary é um dos comediantes mais adorados pelo público, por saber fazer rir sem precisar atrapalhar a arte teatral, como temos visto em alguns “atores”, que não sabem ao menos fazer a cena acontecer. Ary Toledo foi um dos primeiros e mais corajosos humoristas a ensinarem, de fato, a fazer o humor com naturalidade – com um banquinho, um microfone, e o talento sobre o palco.




Vinicius de Moraes e Elis Regina foram os conselheiros para que Ary seguisse a carreira de humorista. Quando ele chegou a São Paulo, atuou no Teatro de Arena e passou a compor canções, tornando seu talento ainda mais vasto.


Agora, Ary está de volta aos palcos paulistanos com mais obscenidades, músicas de sua peculiar composição e tudo que a experiência lhe permite falar com mais vontade. A ótima e pontual iluminação do espetáculo é o ponto alto para auxiliar o roteiro e a interpretação. O Monólogo do F, famosa interpretação do ator, reúne mais de 500 palavras iniciadas apenas por essa letra. O artista rima piadas à atualidade brasileira, respinga sua inteligência em cada história contada no roteiro e faz de seu humor cada vez mais exuberante.

Ary Toledo está em cartaz no Teatro Silvio Romero, em São Paulo, com apresentações sextas e sábados, às 21h e aos domingos, às 19h. O ingresso custa R$ 50,0 e pode ser comprado na bilheteria do teatro, apenas em dinheiro (forma rústica, que deve ser melhorada para conforto e melhor oferta de público). O humorista também segue em turnê em outras cidades.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

“Varekai”, a superprodução do Cirque du Soleil estreia em São Paulo


Chegou ao Brasil o maior circo do mundo, com 58 perfomers, uma tenda gigantesca pesando mais de 5 mil kilos e muita acrobacia e cores. Varekai foi o espetáculo escolhido para desembarcar em São Paulo, com o Cirque du Soleil, sob a criação e direção de Dominic Champagne, um mundo de etnias resume-se a um perfeito tema cigano sobre um esplêndido picadeiro.

“Onde quer que seja”, é o significado de Varekai na linguagem cigana, assim Dominic presta a grandiosa homenagem a alma nômade, à sedutora e animada vida gitana, com personagens enigmáticos, engraçados e belos. Para o Cirque, os clows não são somente personagens com narizes vermelhos, pois eles vão muito além disso. Com o roteiro, é possível viajar por inúmeros estilos musicais, onde o som embala-se pelas cenas, ao contrário dos musicais teatrais. Porém, Varekai também é teatro, balé, contorcionismo e acrobacia. Varekai é um globo de culturas, vislumbrando o batuque cigano descoberto por Ícaro, que encontra-se em seu desejo de viver sem agregar limites, renascendo em branco inocente e vulneravelmente conquistado pela Noiva, a engrenagem de sua metamorfose.

O humor, como em toda arte circense, desce ao espetáculo como um bom gole refrescante, os clowns interagem com o público, o convida a brincar no picadeiro e fazem da simplicidade a elegância do riso. Num arco, desce do topo da tenda uma bela moça variando movimentos, o Aerial Hoop é uma permormance conhecida, mas sempre muito ousada pelo equilíbrio. Os Icarian Games também trazem a força dos corpos e equilibram-se entre a sintonia de cada artista. A Georgian Dance exibe um ato de batidas ciganas com coreografias históricas inspiradas nas lutas Geórgicas contra as forças que tentaram dominar o seu território. O Solo on Crutches nos permite viajar na imaginação do criador, um homem com duas muletas evoluí-se em movimentos impulsionados pelo entusiasmo e equilíbrio.

A iluminação, de Nol Van Genuchten, é uma cascata de ideias, de cores sintilantes e estudadas para desenhar as cenas e refletir-se no cenário florestal de árvores que ganham sentido pelas escaladas dos personagens observadores, assinado por Stéphane Roy. O palco conta com cinco alçapões e embocam os personagens iludindo o público para o sumiço destes. O The Catwalk é um caminho suspenso, por onde é possível refugiar personagens e encaminhar aparelhos, sua estrutura lembra uma imensa espinha de um pássaro, tornando o sentido paralelo ao tema de liberdade do roteiro. No alto, uma passagem chamada The Lookout recolhe personagens e revelam novas criaturas que descobrem-se ao mundo de Varekai, que para Ícaro tornam-se familiares com o tempo.

O Guia é o personagem que traz a luz aos caminhos, sempre acompanhado do Vigia, emplacando aplausos pela ótima interpretação de humor. Nosso idioma é sutilmente arriscado pelos personagens, que demonstram respeito à turnê. O Vigia é um cientista que reserva coleções de memórias do mundo, traz a cultura dos sons e dos sinais para a comunicação com os demais personagens. Os trapézios são de praxe nos roteiros circenses, quatro jovens exibem a perfeita sincronia no Triple Trapeze, enquanto os Water Meteors registram a agilidade de movimentos dos pequenos orientais sustendando cordas com bolas metálicas nas extremidades. O Slippery Surface traz acrobatas que deslizam no palco, com diversas cores e efeitos, e os artistas mais ousados do espetáculo realizam um número de aterrisagem, com o Russian Swings, embalados por balanços que os arremeçam simultaneamente um contra o outro. Uma jovem chega ao palco com o Handbalancing on Canes, suportado o próprio corpo sobre totens, desafiando a flexibilidade e a força. Ela despede-se do espetáculo levando Ícaro ao ar, que antes abria o show com uma rede suspensa valseando ao ar.

Varekai é um beijo na arte de fazer arte, um relacionamento íntimo com os figurinos exuberantes de Eiko Ishioda, mesclando tons vívidos em lycras nobres, junto ao make-up inigualável de Nathalie Gagné, que demonstra o design em rostos. Varekai é a música de todos os cantos do mundo, dos sopros europeus, dos batuques latinos e gitanos, das guitarras americanas e do lirismo nato do Cirque du Soleil, nas vozes dos personagens: O Patriarca e A Musa. Varekai é o embrenhar do homem na curiosidade, debruçado ao calor de um vulcão. É um olhar analítico sobre as danças e as belezas refletidas em tons vívidos de iluminação, é ainda uma direção fantástica da variedade teatral, burlesca e clássica.

Varekai, do Cirque du Soleil, estreou em Montreal, no ano de 2002 e já foi visto por mais de 6 milhões de pessoas em mais de 15 países. O espetáculo está em São Paulo, com a Grand Chapiteau (Grande Tenda), no Parque Villa Lobos, pela realização da Time For Fun e o patrocínio exclusivo do Bradesco. Os ingressos variam entre R$ 395,0 e 140,0 para apresentações de terças aos domingos. Em turnê, Varekai ficará em São Paulo até novembro, em seguida partirá para o Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Recife, Salvador, Curitiba e Porto Alegre.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

“Hedwig e o centímetro enfurecido”: rock, amor e traição


Eu sou suspeito para falar sobre o roteiro de Hedwig, mesmo sendo um defensor das produções nacionais, tenho que dobrar-me a este belo e seguro texto. O musical desembarcou no último final de semana em São Paulo, após temporada no Rio de Janeiro, sob a ótima e notável direção de Evandro Mesquita, que distribuí sua experiência musical aos acordes do espetáculo.

Hansel era um alemão apaixonado pelo rádio e as músicas, foi criado pela mãe na Alemanha Ocidental e acompanhou a queda do muro de Berlin com certo desconforto. Ainda na juventude, Hansel conhece o militar Luther, interpretado pela multi Eline Porto, que reveza-se em papéis masculinos. O recruta promete ao jovem casá-lo e viverem nos EUA, para isso Hansel submete-se a uma cirurgia de mudança de sexo. O resultado foi o pior possível, o novo sexo lhe trouxe perturbações estéticas, quanto ao centímetro que lhe restou entre as pernas. Sua nova identidade passa a ser Hedwig, a traída e fascinada por rock.

O texto de John Cameron Mitchell é saboroso, quente, irreverente e bem costurado. Em algumas cenas provoca confusão, mas ao decorrer do espetáculo a história volta ao eixo. Stephen Trask é o pai das letras e músicas em versão norte-americana, traduzidas por Jonas Calmon Klabin. A musicalidade estronda o teatro com um rock pesado e ao mesmo tempo sensível, há um balanço dos acordes, que em algumas vezes repetem-se dando a impressão de estarmos ouvindo o mesmo som. É tudo muito bom, mas seria ótimo se as notas não ficassem, em algumas músicas, tão similares. É inegável o talento musical de Evandro Mesquita, e surpreendente na direção do espetacular “Hedwig e o centímetro enfurecido”, que sutilmemente movimenta com versatilidade os atores no palco, que ora também comovem a sensualidade de seus corpos envaidecendo a personagem.

Hedwig é vivida em duplicidade artística, perfeita direção de cena e identidade que cada ator deposita ao personagem. Pierre Baitelli não deixa nenhuma nota fora da pauta, cada verso passa por sua afinada voz que não deixa de lado a rigidez do compasso musical. Os movimentos em cena, as expressões muito bem desenhadas, os gestos e as passagens entre as personagens elevam a qualidade do espetáculo. Assim exerce o ofício árduo de cenas irreverentes, agitadas e emocionates, o ator Felipe Carvalhido, que vive Hedwig junto ao Pierre. Carvalhido enriquece as cenas com seu olhar cálido, que a roqueira exige ao personagem. Cada passo no palco arranca-lhe qualquer timidez e ensurdesse os olhos de qualquer um, cegando nossa audição. Os sentidos invertem-se e revertem-se, enquanto tudo no espetáculo nos chama a atenção. E ali é possível rir e concentrar-se na emoção que o humor promove. São os olhos do público que dizem isso, enquanto guardam emoções e soltam os risos. A dupla tem a alta sensibilidade de fazer o público assistir objetos que não estão em cena.

O cenário é impagável, adequado e de muito bom gosto. A arte medieval e metálica do palco é assinada por Suzane Queiroz, enquanto a iluminação de Luiz Paulo Nenen é pontual e pincela a cena como numa impecável produção de rock.O figurino de Marta Reis exibe um desfile em tons exuberantes e cortes “punks”, como assim surgiam os estilos exóticos da época. Daniel Reggio é responsável pelas perucas e maquiagem - adereços que participam com destaque no espetáculo.

Hedwig tem total “força na peruca”, capaz de sofrer de amor, mesmo que com a mesma resistencia de Simone de Beavouir, sua dureza em cena é articulada com a peculiaridade de cada ator, distribuindo a irreverente personalidade da roqueira. Danilo Timm, ao lado de Evandro Mesquita, dirige a musicalidade vívida que reveza entre as consistentes vozes de Felipe Carvalhido e Pierre Baitelli. Flávio Senna Neto é o produtor musical. No palco estão os talentosos artistas da música, que ao vivo soam um contagiante som de seus instrumentos: Diego Andrade, na bateria, Fabrizio Iorio, no teclado, Melvin Ribeiro, no baixo e Pedro Nogueira, na guitarra. Eline Porto divide seu talento contando a história de personagens que passaram pela vida de Hedwig, encanta enquanto canta e interpreta Yitzhak.

É um dos poucos espetáculos que ouso recomendar, a produção de Dan Klabin e Jonas Calmon Klabin é digna dos sinceros aplausos que saudam o show. “Hedwig e o centímetro enfurecido” está em cartaz no Teatro Nair Bello, no Shopping Frei Caneca, em São Paulo, até o dia 16 de setembro. Os ingressos podem ser comprados na bilheteria do teatro ou no Ingresso.com, ao valor de R$ 60,0. Horário: Sexta, às 21h30. Sábado, às 21h e domingo, às 18h. O projeto é realizado pela Oz., e registrado no Ministério da Cultura, com o patrocínio da Riachuelo e da Oi.

domingo, 28 de agosto de 2011

Wanderléa e “A Terceira Força”, em São Paulo


A eterna Ternurinha está de volta aos palcos paulistanos com um vasto e nostálgico repertório. Ontem (27), Wanderléa apresentou o show “A Terceira Força”, com produção de Thiago Marques Luiz, no intimista Teatro Fecap.

Wanderléa subiu ao palco desenhado pela filha Yasmin Flores, já aquecendo a voz para animar o público que não hesitou em chamá-la de “rainha”. Com muita disposição, a cantora mandou a ver num repertório intenso, e deixou nas cordas afinadas do baixo e da guitarra aquele rock que extremecia o lado B e também os sucessos que se eternizaram em sua voz.

A musa do iê-iê-iê relembrou coisas que tocavam pelas agulhas das vitrolas, “Quero ser uma locomotiva”, de Jorge Mautner, vislumbrou o ritmo das discotecas de Ternurinha, além de “Back in Bahia”, de Gilberto Gil, “Menino Bonito”, de Rita Lee, “Quando”, de Roberto e Erasmo, “Feito Gente”, de Walter Franco e “Não vou ficar”, de Tim Maia. Banhada pelo belo desenho de luz, Wanderléa não deixou de lado seu famoso bailado e os eternos moviventos de mãos, que levantou o público ao coreografar e cantar a imortalizada “Pare o Casamento”, de Resnik e Vitor Yong, versão Luis Keller, com direto à buquê de noiva para a plateia.

Notas remasterizadas ao vivo no palco, brilhante afinação e sintonia com a banda, assim “A Terceira Força” é um laboratório da cantora para um novo álbum que está por vir. Enquanto o público relembrava os sucessos e ouvia alguns que pouco foram cantados durante a carreira da artista, Wanderléa soltou a voz num pout-porri de grandes hits, passeando pelo melhor do rock brasileiro “Prova de Fogo”, “Banho de Lua” e “Exército do Surf”. Para dar o toque romantico à turnê, Léo Califórnia, produtor e marido da cantora, incluiu no repertório belas notas em “Esqueça”, de Roberto Carlos, “Te Amo”, “Horóscopo”, “É o tempo do amor”, “Foi Assim”, “Boa noite, meu bem” e o bis final, “Você vai ser meu escândalo”, que fechou o show com aplausos de quem queria mais.

Wanderleá ainda apresenta hoje (28) o show “A Terceira Força”, em São Paulo, no Teatro Fecap, ao ótimo preço de R$ 60,0, para quem é fã do verdadeiro rock brasileiro. Foi muito bom relembrar tudo que não se faz mais hoje, com a mesma qualidade e o mesmo timbre, que a cantora não deixa de lado, com o mesmo ritmo animado de anos atrás. Foto: Divulgação; Thiago Marques Luiz; respectivamente.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Dia do Ator


Ser ator é viver um pouco de cada coisa, de cada sorriso e de cada lágrima que a gente derrama sobre um palco cheio de luz, ou até no escuro do teatro, quando a cena pede silêncio e solidão. Aos que escolheram o ofício é porque de fato amam o que fazem, e é o amor que move a cena, que descortina um espetáculo e que nos acompanha no sucesso.

Um grande artista tem que viver o sabor de todos os palcos, de todas as histórias, tem que saber viver o amor do outro, brilhar com o outro e como bem disse Fauzi Arap: “Quanto menos preconceituoso, maior o artista”.

Viver uma grande comédia é saber lidar com o humor, é descartar as dores do mundo para fazer graça no palco. Mas um ator não exerce o ofício somente no palco, veste algo e encanta numa praça, na arena ou entre amigos, este que solfeja a cena é o grande ator.

Viver um bom drama é trazer para os olhos o sofrimento, a perda, a emoção e os sentimentos mais calados que berram por lágrimas. Ser teatral é respeitar o texto, a direção e os valores que arte impôs até aqui.

Hoje é o dia de todos os atores, inclusive daqueles que seguem com uma trupe celeste, é dia de lembrar o olhar de Maria Della Costa, da serenidade cômica de Paulo Autran, das gargalhadas contagiantes de Nair Bello, dos jargões de Ítalo Rossi, da sabedoria de Zé Renato Pécora e Raul Cortez, e tanta gente que faz um grande e saudoso elenco.

Não é dia do ator preguiçoso, sem vontade, do que não é cena nem canto, é dia de viver a arte fantástica de Denise Fraga, dos consistentes textos de Juca de Oliveira, do humor viril de Eduardo Martini, das direções robustas de Jô Soares, da experiência de Bibi Ferreira, da vida de Fernanda Montenegro, das calorosas comédias de Gerson Steves, Vivi Alfano, Otávio Martins, Rachel Ripani e Rosi Campos. Hoje é dia do ator de fato, do que encanta no cinema, no teatro e na televisão, de todos aqueles que aprenderam, não na escola de teatro, mas na vida artística, o respeito pela cena.

Parabéns aos atores e àqueles que com tanta disciplina nos produzem e dirigem, ao Manoel Carlos, ao Roberto Lage, a Glória Perez, Célia Forte e Selma Morente, os bravos Charles Moeller e Claudio Botelho, ao Nilton Travesso, Carlos Alberto de Nóbrega, Tônia Carreiro, Daniel Filho, Marcos Caruso, Marco Nanini, Francisco Cuoco, Glória Pires, Beatriz Segall, Fúlvio Stefanini, Miguel Falabella, Glória Menezes e Tarcísio Meira, Regina Duarte, e a vasta lista do que há de melhor na arte cênica brasileira.

sábado, 13 de agosto de 2011

Fafá de Belém e Wagner Tisos, em piano e voz


O encontro, que demorou para acontecer, está em cartaz no palco do Teatro Fecap, em São Paulo: Fafá de Belém e Wagner Tisos. O maestro já curava os intensos repertórios de Fafá, que com sua boca modesta sopra as canções mais marcantes da música popular brasileira.

Na playlist do encontro não ficaram de fora eternizados sucessos de Wagner, como “Coração de Estudante” e “Sete Tempos”, que passaram pela voz da cantora entre os memoráveis títulos de Villa-Lobos, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Waldir Azevedo, Dorival Caymmi e Gilberto Gil. Fafá não poupou voz para nos relembrar a sensualidade de “Sob Medida”, composição de Chico Buarque, que passeou um lindo som pelo teatro, arranjado no piano do companheiro músico e no violoncelo de Márcio Malard.

O Teatro Fecap ficou pequeno para tanta voz, Fafá é uma cantora de orquestra, de grandes bandas, e arrisca a nova temporada acompanhada da participação especial de sua filha Mariana Belém, que ainda escorrega em algumas notas, e não demosntra traquejo com o palco. Raul Mascarenhas, convidado para as apresentações, não compareceu por problemas de saúde, segundo a cantora.

Wagner Tisos e Márcio Malard deram um show à parte antes da entrada de Fafá de Belém, por seus dedos e ao som do violoncelo passaram lembranças de Tom e Milton Nascimento, além do delicioso sucesso “Brasileirinho”.

O espetáculo foi curto para mostrar a potência de Fafá, que trouxe pouco público e boa acústica, apesar do timbre de sua voz não acompanhar perfeitamente o som dos instrumentos. A iluminação coloriu belamente o palco, que trouxe ainda “Foi Assim”, de Paulo André Barata e Ruy Barata, em uma fantástica e instimista interpretação. A cantora vestia o mesmo verde que apresentou-se no Teatro Municipal, em “Elas Cantam Roberto”, enquanto a filha trazia as mesmas cores no figurino que vestiu em sua apresentação no Ibirapuera, em homenagem as mães.

É impossível não deixar-se ir ao som de Fafá, que ipnotiza qualquer um ao seu timbre marcante, à alegria contagiante, pois só ela canta e sorri divinamente com total harmonia e beleza. O show fica em cartaz ainda neste sábado (13) e domingo (14), no Teatro Fecap, em São Paulo, ao preço de R$ 60,0. Foto: Divulgação / Portal Terra, respectivamente.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

“A Tempestade”, de Shakespeare


A última peça de Willian Shakespeare, encenada pela primeira vez em 1611, na Inglaterra, está em cartaz no Teatro das Artes, em São Paulo, sob a disperça direção de Marcelo Lazzaratto, com beleza nos figurinos e dinâmica cenotécnica. “A Tempestade” é a obra impecável do autor, que salpica entre vingança e romance, um tempero cômico.

Um duque deposto, o par romantico, os três bêbados e lords conspiradores alimentam o robusto texto de Shakespeare, que passa-se numa ilha exclusa, habitada por Próspero e sua filha Miranda, exilados após serem destronados de Milão. O escravo Caliban, deformado e ousado, serve ao legítimo duque, porém encontra dois tripulantes da embarcação que trazia o rei de Nápoles, Alonso, e Antônio, que num golpe político usurpou o ducado de seu irmão. Uma tempestade, provocada por Ariel, um espírito capaz de transforma-se em ar, água e fogo, catraiou a corte naquela ilha, onde a história ganha seu desenrolar.

Carlos Palma interpreta o mágico e legítimo duque de Milão, Próspero, com fraca impostação vocal, confuso em suas palavras, que o esmaecem no texto. O ator que deveria ser o conto central da história, deixa perder o fio da meada pela ausência de naturalidade e voz. Karen Coelho vive Miranda, que antes era interpretada por Thaila Ayala. A atriz abre sobre o palco sua mala dramática e nos permite assistir o texto por meio de sua interpretação e fisionomia muito bem trabalhadas. O Príncipe Ferdinand é vivido por Sergio Abreu, do qual não tenho muito o que descrever, além de sua neutra participação, que poderia exbanjar o personagem em uma melhor direção e interpretação.

O figurino de cores e tons marcantes não perde-se nas cenas, ganha o foco dos olhares juntos à maquiagem de Patrick Guisso, rigorosamente delineada. A costura e o desenho das roupas é assinada por Beth Filipecki, Renaldo Machado e Ed Galvão. O cenário de André Cortez é movimentado pelos próprios atores, e ganha a transparência para evolução das cenas atravez das entradas praticáveis elaboradas para evolução dos personagens, sábio instrumento cenotécnico utilizado para elevar o espetáculo à atualidade. A iluminação respinga nas cenas um sintético toque tecnológico e refaz a fotografia desta antiga história, desenho de Davi de Brito e Vânia Jaconis.

O numeroso elenco dirigido por Marcelo Lazzaratto, não é tão bem marcado no palco, há muita gente conturbando algumas cenas e abafando o som que não chega com qualidade à plateia. A surpresa e o grande recheio deste bolo fica por conta de Paulo Goulart Filho, que interpreta Ariel com total desenvoltura circense, evoluindo no palco com arrancadas de pássaro, com a vazão fugaz de uma correnteza ou do ar. A delicadeza no olhar, mesclada à destreza que o personagem lhe cobra é perfeitamente interpretada por ele, enquanto sua voz avança num timbre impecável. O baile do coro, os movimentos dos bufões e a musicalidade de André Abujamra destacam-se muito melhor do que a composição de atores.

O som do fagote com o silêncio interrompido pelo duduk, são soprados por Vadim Klokov, que nos leva à Europa com total beleza sonora. Demian Pinto baila os dedos sobre o piano, com segurança e rigidez. Gilson Barbosa, Lieni de Oliveira Calixto e Ellen Hummel sopram o Oboé fazendo caminhar as notas muito bem arranjadas. Nicette Bruno deixa sua voz tomar conta do teatro, quando exibe sua imagem em três cenas divididas em projeções ao cenário, deixando a textura de sua pele dar o toque misterioso à cena.

A produção é bela obra de Regilson Feliciano, com direção geral de produção de Alexandre Brazil e Erike Busoni. A direção ainda grita ordem. O espetáculo é apresentado pela Eletrobras, com o patrocínio do Sonda, Telefônica e Lorenzetti. Copatrocínio da Porto Seguro e Viana Negócios Imobiliários. “A Tempestade”estará em cartaz no Teatro das Artes, em São Paulo, localizado no Shopping Eldorado, até o dia 28 de agosto. Sexta e sábado às 21h e domingo às 20h, e os ingressos custam R$ 50,0 comercializados via internet ou na bilheteria do teatro, pelo Ingresso.com. Foto: Divulgação.

sábado, 6 de agosto de 2011

“Na Boca do Leão” está o melhor da comédia


O texto de Billy Van Zandt e Jane Milmore extravasa a comédia sobre o leão da receita federal, com a consistente direção de Eduardo Martini o roteiro desenrola uma saborosa confusão que não deixa ninguém ficar de fora das gargalhadas.

No elenco está Bruno Albertini, que passa o tempo todo sobre o palco, ele interpreta Ricardo, que tenta burlar a receita federal declarando ser esposo de Darcy, interpretado por Eduardo Martini. Porém Darcy é seu amigo, e decorrente a ambiguidade que o nome propõe, Gerson Steves, que vive o fiscal do Imposto de Renda anúncia sua visita ao suposto casal e dá início a grande confusão, que traz às cenas Vivi Alfano, interpretando a espalhafatosa mãe de Ricardo, Luci Pereira, proprietária do apartamento e ligeiramente intrometida, Carina Sacchelli, namorada de Ricardo, Jésus Adriano e Sissi Zucato.

O texto é uma das grandes comédias do momento, sem dúvidas a sábia cartada de Eduardo Martini para os palcos. Não há o que apontar nos scripts, que acompanham a ótima e animada trilha sonora de Sergio Luis. Como se não bastasse o brilho da direção, Eduardo ainda assina a cenografia com elegantes móveis da Artefacto. Yara Leite esculpe o palco com um perfeito design de luz, que tempera as cenas pontualmente.

O ator Bruno Albertini, acostumado às direções de Eduardo, não desempenha a total naturalidade que seu difícil personagem pede. Por estar em grande parte do tempo no palco, sua desenvoltura requer uma leitura analítica e a atuação despreendida, pois lhe falta se divertir mais no palco, soltar-se da preocupação que ainda o insegura. Pelo menos foi assim na estreia. Vivi Alfano rasga a seda em determinadas cenas, diverte o público e arrebata aplausos com sua fabulosa atuação. Gerson Steves não me surpreendeu, após ganhar a plateia do Zorro, ele mais uma vez passa-se por um personagem desajeitado. Sua atuação é cômica como de costume, permite que ele divirta-se enquanto não deixa de mostrar-se um incrível ator. O timbre da voz e os movimentos no palco o destacam na peça.

Adriana Hitomi assina os belos figurinos do espetáculo, e também nos diverte com a costura que veste Eduardo Martini nas cenas. A auto maquiagem do ator enquadra-se ao pacote de humor promovido por sua atuação versátil, que reveza-se entre um homem e um homem disfarçado de mulher, para ajudar o amigo a não cair na malha fina. Luci Pereira desempenha bem o papel, não esforça-se muito para soltar a voz, o que lhe ajuda a ganhar as cenas. Carina Sacchelli é um rosto novo no teatro, que ainda deve preocupar o diretor, ela ainda é presa e lhe falta naturalidade, porém é uma boa aposta e deve encarar-se como um desafio próprio. Sissi Zucato brilha em sua curta participação, enquanto Jésus Adriano estreia bem em seu pequeno texto.

Estimo que as comédias mantenham-se preocupadas com o protesto e a realidade, juntamente ao divertimento que nos permite sorrir e felicitar o teatro brasileiro. “Na Boca do Leão” não abusa, nem exagera nos cacos, e sim exibe a cara do teatro de humor construído para o sabor do público e do próprio elenco. O projeto é patrocinado pela Ticket e Porto Seguro, sob a lei de Incentivo à Cultura, pois algo que realmente vale a pena o governo cultural tem realizado. A Produção executiva é de Marcos Meneghessi, ao lado da produção de Adriana Amorim e coordenação de Três Jóias Produção.

“Na Boca do Leão” estreou no dia 2 de agosto e exibe-se em curta temporada no Teatro Folha, em São Paulo, até o dia 18 do mesmo mês. Os ingressos custam R$ 20,0 ou R$ 30,0. Horário, 21h, de terça à quinta-feira. Fotos: Gustavo Mendes e Marcos Meneghessi, respectivamente.