segunda-feira, 23 de julho de 2012

Rita Lee é pra se ouvir de joelhos e com “reza” boa


Quando eu conheci a Rita passei a compreender de onde brotava o rock que tanto falavam no Brasil. Não há nada mais gostoso que ouvir a exploração dos instrumentos e de uma voz que recusa playback, após a Jovem Guarda, que vestiu o País de jaqueta preta. Depois que o Brasil conheceu a trupe da Jovem Guarda, eis que surge a mulher que deixaria de joelhos aos seus cabelos acobreados. Pra rezar? Agora sim! Mas ela nunca negou seu teor revolucionário. Quando eu ouvi as guitarras de Roberto de Carvalho e de sua prole Beto Lee, e mais recente e com audácia as introduções do piano de Danilo Santana, eu conheci uma das minhas predileções, o rock, mas o da Rita Lee. Agora com “Reza”, seu mais novo e impecável álbum, cheio de balangandãs e balacobacos.

Ouvir Rita Lee é um pouco além de estourar uma trincheira, ultrapassar uma geração, retroceder e interceder, ir além de qualquer tempo, reler e queimar seus próprios contos e ver chamuscar arte. A Rita é um vulcão! Prepare-se para aprender novos adjetivos, porque eu vou precisar de muitos daqui pra frente!

“Por causa de um baseadinho?”, foi a frase que trouxe de volta as indagações de Rita Lee para a história. Ela chegou a ser convocada para depor numa delegacia, em seu show de despedida dos palcos em Sergipe, após incomodar-se com a presença de policiais revistando fãs em seu show. E foi, sem arrependimento. Não precisamos levantar bandeira alguma, mas seu verbo é transitivo e eu assino embaixo.

O dia em que nos encontramos eu tinha pendurado no ombro uma câmera fotográfica. Mania de jornalista em andar com o olho eletrônico sempre ao alcance, espreitando o que pode acontecer no caminho. Dei-lhe um abraço, típico de quem encontra a Rita, e seu frenético batom avermelhado, que contrasta com os cabelos, fitou meu rosto e alimentou seu sorriso. A Rita colocou as mãos na minha câmera e disse: “Isso aqui não é feito pra fotografar? ‘Tá’ esperando o que pra tirar nossa foto?”. Isso é artista que se respeite? É! Tiramos a foto e o carro chegou. Foi uma das últimas vezes que nos vimos. Estou com saudades. O palco, mais ainda!
No episódio em que Rita foi autuada pela polícia, marcara, tipicamente, sua despedida aos palcos. Os devera roqueiros derramavam lágrimas e já inspiravam as saudades. Mas, enquanto fechava sua vida dos palcos, Rita e Roberto preparavam um álbum de cetim. “Reza” chegou para coroar os cabelos de fogo e nos colocar a ouvi-la de pernas pro ar. Rita, então, despedia-se dos palcos.

“Reza” tem uma coisa que talvez um filho, ludicamente falando, de Dorival Caymmi e Janis Joplin representaria em pessoa. O batuquinho do baticum de uma macumbinha, com a magnífica versão de rock dedilhada com gozo nas guitarras e nos graves do baixo mestre. Tantas palavras, algumas que vou inventando, outras que já ouvi entre a Bahia, São Paulo, Rio e Londres, mas são cabais para falar de “Reza”. Os trabalhos abrem-se com a primeira faixa chamada “Pistis Sophia”, e como o Mar de Sophia e o Mundo de Sophia, clássicos, desvelam a religiosidade de Rita. É um auto-retrato de fé, num ruído gostoso. Consigo ver Rita beijando santinhos, inventando suas próprias orações e pouco se lixando pra opinião de sua versão ateia de se viver. São sons, sem predicados, com a função de introduzir o álbum, jogar os búzios na mesa, limpar o congá, jogar arruda na cabeça, dar um trago no charuto, jogar o uísque pra trás e lavar as mãos com água de cheiro. Sem esquecer dos três nós na fitinha do Bonfim. “Reza” começa assim, trazendo em seguida a música que intitula o álbum.

Rita Lee Jones, já foi batizada com nome de artista, nasceu no último dia do ano, na capital paulista, e foi descrita por Caetano Veloso como “a mais completa tradução” de São Paulo, na canção “Sampa”. No Brasil, é a cantora que mais vendeu álbuns na história, com mais de 65 milhões de cópias.

Rita integrou os Mutantes, na década de 60 e meados de 70, onde serviu letras até hoje reconhecidas em sua voz com uma lembrança enxuta dos fãs. Sempre com o dom de improvisar instrumentos, chegou a utilizar uma bomba de dedetização para sonorizar “Caminhante Noturno”. Quando deixou o grupo, ao fim de seu casamento com o outro integrante, Arnaldo Baptista, juntou-se com a amiga Lúcia Turnbull para lançar a dupla As Cilibrinas do Éden. Com o término da dupla, Rita ingressou no Tutti-Frutt, e em seguida fez carreira solo, quando, entre outras, lançou “Ovelha Negra”, mostrando que compositora era. Em 1976 conheceu Roberto de Carvalho, com quem teve três filhos e laçou uma estupenda parceria musical. Um dos filhos é Beto Lee, guitarrista de dedos afiados, que deu-lhes de presente a neta Izabella, pondo outra personagem factual da família Lee para correr pelos corredores do colorido lar de Rita e Roberto.
Na época em que o rock ganhava cores tropicalienses havia uma certa divisão na música. A ditadura rolava solto pelas ruas e a censura pilhava os palcos. Homens sem escrúpulos algum tomavam conta do que hoje chamam de política. Elis Regina passava pelos corredores de festivais sem levantar assunto com Rita Lee, mesmo a encontrando pelo caminho. E quem nunca admirou a jazzística voz de Elis? Rita, mesmo a adorando, ficava na dela.

Em 1976, Rita é presa por porte de droga. Não que a tenha usado, mas amigos frequentavam sua casa e largavam fagulhas pelas peças. Grávida ouvia suas músicas em mente por detrás de ferros quentes da prisão. A única a visitar foi Elis, e essa foi tamanha surpresa. Como grandes amigas, Elis fazia rebuliços na prisão, e quando Rita saiu a colocou pra cima, convidando para espetáculos e musicais. A chamava de Maria Rita, e anos depois, ao nascer sua única filha, a batizou com o apelidinho que nomeava a amiga do rock.

Em 1996 Rita Lee, enquanto brincava com seu cachorro, caiu da sacada de sua casa e triturou o côndilo maxilar. O episódio quase a afastou definitivamente da música.

Não posso deixar de relembrar um encontro histórico. Rita em casa, toca o telefone e o pai da bossa apresenta-se cantando “Mania de Você”, ainda ao telefone. Rita cai em si, e comprova a veracidade da sorrateira voz que sussurra sua composição. João Gilberto, ao outro lado da linha, a convidava para gravar, em 1982, um especial seu na TV Globo. Enviou para ela uma fita com a canção “Jou Jou Balangandãs”, e continuava a telefonar para explicar tudo sobre a música. Além de tudo disse o vestido que ela usaria. A apresentação aconteceu, sem ensaio. Foi uma das únicas vezes que vi João Gilberto cantar de pé.

Rita Lee mandou para as agulhas das vitrolas inúmeros Lps. Eu ainda admiro muito aquela capa azulada em tons de água, com os traços tropicais, do álbum que trazia seu abraço com Roberto de Carvalho. Tenho ele comigo. O som do disco é mais íntimo, aquele ruído da agulha beijando o acetato constantemente é como ouvir os pássaros que solfejam na penúltima faixa de “Reza”, que também ganhou bela versão em disco.
Essa penúltima faixa tem um nome bem complicadinho de pronunciar, mas fica fácil na segunda estrofe. As músicas de versos e cheias de transições instrumentais e com bárbaros solos gravam rápido na cabeça da gente. Duas vezes ouvindo o CD eu já estava repetindo “As Loucas” e “Tô um Lixo”, ambas com letras rápidas e de um entendimento direto. Voltando à penúltima faixa, “Bamboogiewoogie”, tem um cangerê com cordas e palmadas. É uma novidade, como foi “Bat Macumba”, na Tropicália.

“Reza” tem o calibre da Biscoito Fino, que é a casa, em plena sala de estar dos bons amigos. Dos bon vivants, da boa música.

No último show em que fui havia uma banda, vou poupar os palavrões, que aliás, já evitei durante todo o texto, que era “boldo na veia”. Danilo Santana arrebentando nos teclados, como se fosse a ópera do rock. As cordas regidas por Beto Lee e Roberto de Carvalho, além do baixo de Brenno Di Napoli. Os vocais de apoio de Rita Kfouri e Debora Reis e as pancadas na bateria de Edu Salvitti. Voltei pra casa neste dia sem querer ouvir mais nada durante uma semana. Eles todos são muito bons.
Não vou ficar falando das outras músicas, apesar de não ter falado nada sobre “Reza”, a segunda faixa do álbum. Cada um tem uma reza, a da Rita é cheia de mandingas. Imagine um patuá cantado. Isso é “Reza”, a canção guardada que foi jogada a rosa dos ventos desenhada na capa do CD. Mas, não é uma rosa dos ventos. São as cópias do olhar de Rita banhado pelos fios vermelhos de suas madeixas. Ouçam o disco inteiro e verá que cada um tem algo a declarar. Ou cale-se, vá pintar. Ela faz assim! É interessantíssimo.

Rita Lee deixou no ar sua volta aos palcos, após declarar que não voltaria mais a fazer shows. Eu estou apostando que volta. Sua intimidade é o palco, é o som, é estar entre suas mais chegadas guitarras e de apito na boca.

Rita, volta que a gente tá esperando você!

terça-feira, 17 de julho de 2012

Criolo, um nó na orelha, um rap de Buarque


É claro que Chico Buarque ajudou no adjetivo a Criolo, em um de seus shows parafraseando o próprio MC, em uma paródia feita sobre “Cálice”, sucesso de Burque e Gilberto Gil. O que sai de Buarque é lei. Criolo é o mais recente MC que ganhou âmbito nacional poetizando o dilema das periferias em suas próprias canções. O MC, como são chamamos os rappers no Brasil, saiu com três troféus no 23º Prêmio da Música Brasileira, no mês passado, e tem feito sucesso com seu álbum “Nó na Orelha”.

Kleber Cavalcante Gomes, o Criolo, foi criado na comunidade das Imbuias, região do extremo sul de São Paulo. Seu pai é metalúrgico e a mãe formada em diversas áreas, ambos são cearenses. A mãe estudou com ele, na mesma clase, durante todo o Ensino Médio, na época “Colegial”, e hoje promove encontros literários e filosóficos. Irmão de mais 4, Criolo é fruto de uma poetisa de palavras e espírito, aos onze anos, numa ida ao colégio, conheceu a poesia nas mãos dos meninos que a compunham e por ela se encantou. Nas rádios a poesia tinha o nome de rap.

Sua mãe sempre gostou das letras, e deu-lhe este gene em caráter hereditário. Há um bom tempo, quando comprava-se carnes os açougueiros embrulavam as compras em folhas de jornais, e ela corria para casa na tentativa de ler o conteúdo do periódico, antes que o suor e o sangue da carne o sucumbisse.

Criolo também faz sucesso porque não banha-se dos holofotes, tampouco prioriza os endereços onde as pessoas vivem. Sua origem humilde permite-lhe compartilhar a simplicidade e a intelectualidade de sua música com o público e o torna produto do meio, deixando a filosofia de lado, digo-lhe como produto, não em mercadoria, mas em letras. O último álbum lançado, “Nó na Orelha”, tem todas as faixas disponíveis para download na internet, e foi produzido pelos parceiros Marcelo Cabral e Daniel Ganjaman.
Este cara, que veio a somar nos gênios das composições, ouvia música em vinil e ainda defende a qualidade intimista que os acetatos emitiam. Ele, inclusive, reunia pessoas para ouvir os clássicos Lps. No bairro do Grajaú, região sul de São Paulo, cadenciou sambas com o grupo do Pagode da 27, batucantes do samba no coração da periferia desta imensa capital, que sempre lhe serviu de inspiração em composições como “Não Existe Amor em SP”, que lhe rendeu a frase dita e compartilhada por milhares de brasileiros, e que foi também cantada ao lado de Caetano Veloso.

Criolo, com sua voz, que vai ganhando sotaque ao gingado da conversa, ainda recebe cartas no mesmo endereço no Grajaú, enquanto viaja pelo Brasil e o mundo mostrando a que veio. Aparece no Pagode da 27 para misturar rap, música popular e samba num jeito bosseiro da música de periferia, que cada vez mais ganha frequência nas rádios e downloads na mídia eletrônica.

“Nó na Orelha” é um belo quadro que qualquer dona de casa e a moçada pendura na parede para admirar de acordo com sua interpretação e sua cultura, com palavras bem cursivas e frases elaboradas ao timbre pitoresco e aos acordes de instrumentos bem reservados ao gênero eletrizado do rap, vão passando de faixas diversas misturas de uma nova característica que só o seu rap tem, casado aos ritmos oriundos de qualquer extremo do Brasil e encontrando numa só artéria, a principal: boa música!

Mulato, branco, amarelo, negro de pele mameluca, pardo e com a sensibilidade de um poeta, há todo tipo de mistura em sua veia musical. Sua origem é como a de todo mundano cancioneiro, ele nasceu dos olhos do mundo, numa lágrima de sofrimento dos pobres, e no sorriso deles em sua riqueza de sons e sentidos.

Gravado por um amigo, Criolo cantou uma paródia feita da canção “Cálice”, de Chico Buarque e Gilberto Gil, exumando o sofrimento que a canção exprime em interpretação e jorrando educação cívica. Uma das estrofes dessa composição parafraseada pelo MC diz: “Os saraus tiveram que invadir os botecos, pois biblioteca não era lugar de poesia.
Biblioteca tinha que ter silêncio,
e uma gente que se acha assim muito sabida”.

Essa recomposição, feita por Criolo, foi cantada por Chico Buarque em um de seus shows e emendada a um agradecimento cantado em forma de rap ao MC.

Criolo trouxe uma canção da década de 70 para sua formalidade contemporânea e deu voz ao morro na intelectualidade Buarquiana, através da qualidade sensorial de sua música. Acabo de dizer isso, mas repito, Criolo faz a canção sensorial.
Na última edição do Prêmio da Música Brasileira, que homenageou João Bosco, onde Cauby Peixoto e Alcione receberam o prêmio de melhores cantores em suas categorias, Criolo recebeu o prêmio de Melhor Cantor e pelo Melhor Álbum na categoria HipHop, além de Artista Revelação.

Sua alimentação musical permite uma qualidade técnica simples e de total formalidade em composição. Criolo tem a voz calma e as canções variáveis em rígidas e sensíveis, pelo caráter poético e também incisivo ao morro que ele dá voz.

Hoje ele passeia pelo mundo, enquanto o mundo passeia em sua mente!



quinta-feira, 12 de julho de 2012

Atreva-se, a comédia cinematográfica do teatro


Seria possível usar a expressão “um contemporâneo e inédito clássico cinematográfico nos palcos do teatro”? Acredito eu, que para falar de “Atreva-se”, sim! A peça de Maurício Guilherme, com o toque hilário da direção de Jô Soares, está em cartaz no Teatro das Artes, em São Paulo, e traz uma comédia em preto e branco, num “formato 3D” do cinema noir, para o teatro. No elenco a irreverência de Marcos Veras, Júlia Rabello, Mariana Santos e Carol Martin.

Maurício Guilherme tirou o texto da gaveta e revelou em sua película um emaranhado formado por três histórias cômicas, que parecem ser o que é, mas não são aquilo que parece ser. A história adapta-se a uma comédia noir, e torna-se rapidamente adaptável a isso. Na década de 40, os filmes noir (film noir, do francês, filme preto) surgiram nas telas como um novo modelo visual de exibição cinematográfica. E é neste molde que o espetáculo “Atreva-se” encontra o seu roteiro, o deslumbrante figurino, os gestuais, o cenário e o recorte das cenas.

Como todo antigo cinema, o lanterninha passa pela plateia com sua luzinha acesa. Mariana Santos deixa seus apagados e destemperados personagens da televisão para um grandioso texto cômico, em molde de stand up comedy, vai encaixando improvisos e apresentando figuras naturalmente irreverentes do público. Com um alto teor de humor, Mariana desfila um texto bárbaro e sem exageros, apesar do permitido e tolerável à comédia. Quando ela bate a claquete anunciando a primeira cena da história, Marcos Veras e Júlia Rabello destacam-se para além de um casal da vida real, mas um belo encontro teatral.
Com os objetos da sala de um casarão todos encobertos por panos brancos, para evitar o pó, e os quadros postos no chão, mostrando as marcas de anos pendurados na parede, o corretor de imóveis, interpretado por Marcos Veras, acentua a perfeição da casa, construída em frente a um parque municipal, com a arquitetura preservada, e a póstuma história de outras duas famílias que ali moraram em décadas passadas as de 1963, quando ocorre a cena. A casa é apresentada a compradora interpretada por Júlia Rabello, que contracena com o enriste dedo médio paralisado para o alto e o caolho do corretor.

Com as tiradas de humor, o sobretudo vermelho com os cordões dourados arrobustando os trajes da lanterninha, é anunciada a segunda cena, sob a batida da claquete. Esta é uma regressão para a cena que acontece na década de 20. Grandes quadros presos à parede, malas e baús Louis Vuitton e um imponente relógio imperando entre as janelas de vidros curtos e alto cumprimento. Ao lado esquerdo o telefone e a mesinha de madeira, combinando ao direito com uma bela cadeira e um prateado castiçal ao lado do rádio, ao meio um sofá de centro assentando o chapéu de Júlia e sua personagem, quando no alto acende o generoso lustre em preto e cristais, que transpassa a fumaça do cigarro aceso. Uma governanta, interpretada por Carol Martin, de longo vestido preto e cabelos gomalinados para o lado, cruza a casa revirando a poeira e assustando o homem medroso interpretado por Veras. O clima policial da história entre os irmãos que moram na mansão, envolve a sinistra governanta e entona o clímax com o fresco toque cômico que vai evoluindo junto à espetacular desenvoltura dos atores.

O autor tira da manga mais uma história para envolver a comicidade policial e entrelaçar as três cenas à fim de chegar a data da compra da mansão. Com uma tímida reformulada na sala, e os quadros renovados, o tom preto e branco recebe nova história na velha mansão. Duas primas aguardam com ânsia sincronizada a visita do amigo, que gira para mover-se em sua perna mecânica sobreposta num belo corte de smoking acalentando no peito um broche redondo do Presidente Roosevelt, por quem saúda. Neste cenário as duas almejam o mesmo homem, e por ele tramam um irreverente assassinato.

Na batida da próxima claquete é trazida de volta a cena da compra do imóvel, em que a personagem de Júlia Rabello aceita as chaves das mãos tratadas com luvas de couro pretas do corretor vivido por Marcos Veras. Desde aí começam o desenrolar das histórias e a descoberta da existência daqueles personagens, tão incitados pela inquieta lanterninha.
Não é difícil sentir-se como num cinema, sob a luz desfalecida em certas cenas e robustas em outras. A galante iluminação de Maneco Quinderé surpreende pelo efusivo trabalho retirado de seu vasto cartaz de espetáculos, e contrasta com o garboso cenário de Chris Aizner, que troca venustos figurinos do venerado Fábio Namatame. Para a trilha disso tudo, os sons modulados com abafamentos típicos, para a perfeita sonoridade da época, é obra de Eduardo Queiroz.

Os sobretons pretos, brancos e de prateados a cinzas caem aos veludosos e vistosos corpos cênicos de Júlia Rabello e Carol Martin, que emplacam mulheres de olhares férteis, capazes de brotar várias e gigantes personagens, encontradas em atrizes de semblantes e timbres tecnicamente cinematográficos, adentrados ao teatro. Mariana Santos traz em seus cabelos loiros, caídos pelo casaco vermelho, a única cor escapada do noir para a plateia, com a inteligência cômica acrescida por Jô Soares numa personagem que tornou-se de extrema importância para a acentuação do humor no espetáculo. Enfim, Marcos Veras é a caixinha de surpresa, que salta um personagem melhor do que o outro, carimbados pela astuta personalidade teatral do ator e sua digital evidentemente impressa a cada característica dos personagens. Este foi escolhido a dedo, como todos os outros, mas como o único homem sobre o palco, destaca a impostação e relevância de sua presença em cada cena. Ouso em dizer que ele é o Charlie Chaplin dos dias de hoje, de cara e gestos.

O texto de Maurício Guilherme reflete o genial suspense empoeirado de seus arquivos dos anos 90, para a magnitude de Luciana Sendyk, que colaborou com o tratamento e lapidação do roteiro. Está nos olhos de qualquer bom entendedor o primor do espetáculo e sua característica captada por ninguém melhor do que Jô Soares, amante das duas artes cênicas, do teatro e do cinema, que coloca um esquete de noir para um palco teatral. Isso é no mínimo sensacional.
O espetáculo é o brilho inspirador de clássicos do cinema como “Expresso para Berlin” e “Frankenstein”, além de outros, por suas paradas pitorescas e os clímax, além da incompatibilidade de fatos e confusões atreladas ao suspense, que logo tornam-se compatíveis, quando desenrolados. Como já dito, o cinema 3D sempre existiu, e ele chama-se teatro, eis em “Atreva-se” a personificação disto.

Algumas fotografias, de Priscila Prade, feitas em quadro e moldura, como as que ornam o cenário de “Atreva-se”, estão em exposição no bistrô “Paris 6”, com fotos do espetáculo. É possível fazer xixi sendo observado pelo único olho aberto do personagem de Marcos Veras. Ainda não sei qual é a sensação, mas certamente vale a pena compartilhar da urinada.

A produção é de Rodrigo Velloni, com realização da Velloni Produções Artísticas.  A peça está em cartaz no Teatro das Artes, no Shopping Eldorado, em São Paulo. Quintas e sábados às 21h30. Domingo às 20h. Os ingressos custam entre R$ 50,0 e R$ 60,0. A temporada esta prevista até o dia 2 de setembro na capital. Recomendo assistir, e depois dá uma passada no Paris 6, além das fotos, o cardápio é ótimo.

sábado, 7 de julho de 2012

Priscilla, Rainha do Deserto: Um ônibus, três drags e uma incrível viagem



O Brasil está no ponto alto de suas produções musicais, por aqui já passaram suntuosas produções, com requintes e detalhes minuciosos e que fazem brilhar os olhos do público. O que atualmente está brilhando, em todos os sentidos, é o musical “Priscilla, Rainha do Deserto”, que desde março, no Teatro Bradesco, em São Paulo, vem sendo sucesso de público e emplaca um roteiro sensível e muito animado.

Somos levados a dançar sob um imenso globo espelhado e que ilumina todo o grandioso Teatro Bradesco logo no início do espetáculo, com uma impecável overture levada pelo diretor musical Miguel Briamonte, fazendo brilhar das pontas de suas batutas sucessos musicais que há anos levam ao bailar das peruconas de drag queens e de quem quebra preconceitos para assistir o labo B da arte, que vem cada vez mais ganhando espaço no mundo teatral. Cada acorde é um prêmio de execução. Tudo é incrível, figurino, maquiagem, perucas, luz e cenário.

As Divas Priscila Borges, Lívia Graciano e Fabiane Bang, essa última substituindo Simone Gutierrez, descem, suspensas por um balanço, soltando das potentes cordas vocais os memoráveis sons de Glória Gaynor, Village People, Madonna, Cindy Lauper, e outros, entre os atos e reforçando o coro.

Leonardo Wagner, substituindo Luciano Andrey, interpreta Tick, a drag Mitzi, que reúne mais duas amigas drags para um show no Casino Alice, no deserto australiano. A veterana Bernadette, vivida por Ruben Gabira, toma conta dos palavreados cômicos do espetáculo e dá um banho de interpretação, canalizando em sua personagem o ritmo frenético daquelas atrizes de cabarés e vaudeville. André Torquato é o grande trunfo do musical, interpretando Adam, a drag Felicia, jovem e por demais aventureira, Torquato empresta seu largo sorriso e classe cênica para uma personagem marcante e de uma flexibilidade musical, num conjunto – canto e dança – fantástico.
As três drags, a bordo do ônibus Priscilla, viajam deserto adentro deixando o rastro de uma história irreverente e cheia de toques e retoques sensíveis. O ritmo do espetáculo não caí, e a cada ato uma grande surpresa sai dos graciosos e garridos figurinos, assinados por Brian Bustos e criação de Tim Chappel e Lizzy Gardiner. Tick, tem um filho, Benji, interpretado e docemente entoado pelo pequeno Lucas Cavalcante. Fruto de um relacionamento com Marion, interpretada pela espetacular Naíma, Tick leva o pretexto do show para conhecer o filho, o que não o torna menos drag, tampouco limita o amor do filho pelo pai.

O ônibus Priscilla sempre será a grande estrela do espetáculo, com 30 mil pontos de LED a lataria ganha a iluminação rosada que dá o tom ao show, e faz-se um cenário dinâmico evoluindo cores e muita riqueza em detalhes.

O filme, que estreou em 1994, levou a estatueta do Oscar pelo melhor figurino, e por incrível que pareça, após um ano em que o musical estreou na Broadway, sua versão veio para o Brasil, com toques tropicais, e enalteceu a beleza do roteiro original, elevando os tons e a beleza das cenas. O musical consegue ser uma adaptação mais bela do que o filme.

O livreto de Stephan Eliott e Allan Scott, ganham consistência com a direção cheia de plumas e paetês de Simon Phillips, e as pomposas coreografias de Ross Coleman e Andrew Hallsworth, sob as cores drags da luz de Nick Sclieper e Michael Waters. Tania Nardini é a diretora residente e também redesenha as coreografias reescritas por Fábio Marinho, em sua versão brasileira.
Nessa sublime produção de Almali Zraik, duas destacantes e irreverentes personagens deram, por minutos, gargalhadas constantes ao público. Andrezza Massei, por quem sempre tive grande apreço artístico, vive a destrambelhada e cômica Shirley, que com sua caipirice perambula o palco explorando o corpo para a graça do roteiro. Leandro Luna é Miss Segura, a drag que apresenta o espetáculo e encaixa certeiros cacos em seu script. Ele explora sua flexibilidade facial e corporal, para despertar um musical cheio de bom humor.

A oriental Lissah Martins, é Cynthia, esposa de Bob, interpretado por Saulo Vasconcelos. Cynthia é impulsiva, e realiza o sonho de dançarina num botequim à beira da estrada, usando sua potente vulva para levar ao público uma chuva de bolinhas de ping pong. Claro que tudo é um jogo de cena. Os atores formam um ótimo e irreverente casal, aliás, onde a irreverência deixa a desejar neste espetáculo? Em momento algum!
Todos os atores estão muito bem calçados aos seus personagens, e não deixam sobras nem ausências. O trio de drags é como a trinca de ases tão esperada às mãos de um jogador, e que escorre à mesa com o suor da bela jogada. Leonardo Wagner é um traço de brilho para o texto. Ruben Gabira é o auto dos vaudevilles,  e a ele aplaudo de pé. André Torquato é a estúrdia de um homem e mulher num corpo só, tem o tudo de um grande ator, voz, corpo e swing.

A arte das Drag Queens está contada e recontada em boas mãos, de forma leve e divertida, cheia de brilho e beleza, aos meus olhos é tudo estonteante.

O globo espelhado desce sob a plateia novamente anunciando o desfecho ao som de “Dancing Days” e “I Will Survive”, o grande hino. Deixei o vislumbrante Teatro Bradesco com o som nos ouvidos e a bolinha de ping pong nas mãos, e nela grafado o nome de uma obra prima dos palcos: Priscilla, Rainha do Deserto!

Fotos: Caio Galucci 

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Maria Bethânia em seu Oásis de canções e poesia


Quando comecei a ouvir o último álbum de Maria Bethânia, lançado em março, o “Oásis de Bethânia”, produção de Jorge Helder e da própria intérprete, me transpus num caminho inverso ao que o mundo caminha, o das catástrofes e desapegos. Bethânia registra fé, amor e sutileza numa seleção musical cheia de batucadas e palavras. É como se ouvisse uma voz do recôncavo asilar-se dentro de nós. O álbum foi lançado neste ano, com dez canções capazes de embriagar qualquer um de som e sensibilidade.

Ouvi as faixas em todas as ordens, do início para o fim, do fim para o início e a sensação é de um caminhar pelo deserto árido que há em nós, como se daquele chão infértil pudessem ressurgir mato, com cheiro e tom de grama fértil.

O dedilhar dos instrumentos e as palmadas no couro de cada batuque traçam um Brasil cheio de sons encorpado à voz de uma das artistas mais nobres dos palcos. Bethânia é uma esfinge teatral, um orixá vivo, um terço em extrema fusão com as mãos do homem de fé. Sente-se saudades ouvindo as canções, saudades não sei de que, talvez saudades da música que permite aos instrumentos sua exibição orquestral encaixando a doce voz à cada verso e nota. O Oásis é assim.

Enquanto voava à bordo de uma pequena aeronave, entre São Paulo e Brasília, fui ouvindo, sei lá depois de quantas vezes, o Oásis, e olhando pela janela do avião avistava a letra das canções passarem por debaixo das nuvens e por cima de cada palmo de chão e rios. E assim continuei escrevendo sobre o “Oásis de Bethânia”, permitindo-me entrar neste espaço cheio de palavras e do registro vocal encanteiro de uma mulher sertaneja, que carrega no timbre e nos passos os sons de sua infância e a verdade da poesia.
No violão algumas faixas falam de amor, sem citar o amor, sem adocicar demais o sentimentalismo. Com acentuações e variações de timbre, Bethânia raspa a perfeição, tira-lhe medidas acima disso e entrega-nos uma obra de arte, um movimento de encontro entre as músicas da porta de casa no final da tarde, às velas da mesa à noitinha, e do luso portuário dos fados.

Ouvindo “Casablanca”, de Roque Ferreira, esqueço-me num repente em um bar à meia luz, com um pianista tocando para o casal que ficou e eu irresoluto a ir embora. Chega em um momento que Bethânia deixa a voz para um saxofone imperar seu belo som. E passando de faixa “Calmaria”, de Jota Veloso, entra com um berimbau e a voz a cappella de Bethânia, alternando em seguida as poucas notas do instrumento e seu chocalho, para então nos dar o brinde de “Não Sei Quantas Almas Tenho”, texto de Bernardo Soares, com edição do mestre Fauzi Arap, em recital. Eu não estava no bar, eu ainda estava no avião, mas este álbum nos faz caminhar por onde nem passamos ainda, e mesmo assim sentir falta daquilo que nem vimos, ou tocamos.

Na gravação de “O Velho Francisco”, de Chico Buarque, o arranjo é nacionalizado e regionalizado com beleza por Lenine, assim como o ritmo impulsionado em “Vive”, canção inédita de Djavan, arranjada por ele na faixa.

“Fado”, de Roque Ferreira, é de fato um passeio de barco pelo Tejo, a canção tem um texto literário, é uma resenha do mar luso e seus amores. Ao piano, “Barulho”, também de Roque, desperta para o interior do homem, arrancando de Bethânia o romantismo contemporâneo das relações e a paz que busca qualquer amor, como diz uma das frases dessa canção: “eu só sei amar direito, nasci com esse defeito no coração”.
Quando assisti ao show “Amor, Festa e Devoção”, seu penúltimo álbum, via o saltar de pétalas vermelhas nos pés de Bethânia, e sua história contada pelos doces versos que desenhavam Canô em música e poesia. O “Oásis de Bethânia” é quase isso, mas traz uma autoria própria, mesmo que com canções de outros. Neste CD ela ousou escrever, e deu voz ao seu texto “Carta de Amor”, sobre a canção de Paulo César Pinheiro, bailando orixás e santos num intenso poema cantado e recitado, ao fundo, palmas, por dentro das letras batidas de pandeiro e do coração de quem ouve. O que dizer de uma das frases dessa canção, que risca o prato de Dona Edith – “medo não me alcança, no deserto me acho, faço cobra morder o rabo, escorpião virar pirilampo... É tempo de reparar na balança de nobre cobre que o rei equilibra, fulmina o injusto, deixa nua a justiça”. Essa canção é um grito, um som que vibra o extinto.

Bethânia com sua voz, e o conjunto cênico, me derruba, ao mesmo tempo que faz minar água de um deserto árido, nuns acordes de amor e fé. A abelha-rainha sabe tirar mel da terra, brotar lágrimas de olhos secos e som do oco.

“Oásis de Bethânia”, além de estar à venda em CD, também ganhou uma impecável versão em LP. Os shows devem viajar à partir do próximo semestre, por enquanto podemos nos deliciar com uma turnê em que Bethânia canta canções de Chico Buarque de Holanda.