terça-feira, 29 de novembro de 2011

“Minhas Sinceras Desculpas”, com Eduardo Sterblitch


Essa é minha primeira crítica dirigida parcialmente ao público, assim como foi um dos únicos espetáculos que já assisti onde a crítica está para o público. Eduardo Sterblitch não é o César Polvilho da TV, personagem que apresenta o programa Pânico, na Rede TV. No palco, o ator tenta contar sua história através de uma tragicomédia, que é ligeiramente traduzida para humor pelo próprio público catequizado pela televisão e que esperava um encontro com os personagens do ator.

“Minhas Sinceras Desculpas”, que teve sua última apresentação no Citibank Hall, em São Paulo, não é um monólogo, tampouco foi um espetáculo que me arrancou risos, Eduardo é um ator de teatro, que ganha a vida fazendo humor na televisão. Sua experiência teatral, com o espetáculo, parece um despejo frustrado de sua trajetória cênica, o ator rebusca sua própria história e a expõe ás vistas do público de uma forma direta, utilizando exemplos da burguesia moderna e do comodismo humano, onde o público aprendeu a saciar-se apenas com a cultura televisiva.

Eduardo é um dos atores mais versáteis que conheço, e sem dúvidas uma das melhores revelações que surgiram nos últimos anos. Suas expressões, e as vezes a falta delas, contornam sua maneira pitoresca de fazer humor. Eram os personagens que o público esperava no palco, e ao público ele os deu. Ao início da peça somos surpreendidos com Paulo Autran, em áudio, recitando “José”, de Drummond. Eduardo também interpretou rapidamente uma gama de imitações levando a plateia ao riso, porém em seguida metralhou a todos com a verdade de seu texto. “Minhas Sinceras Desculpas”, segundo o roteiro, é um pedido de desculpas pelo comportamento escroto da sociedade atual, de suas mazelas e expectativas frágeis.

Sterblitch não preocupa-se em fazer o público rir, segundo sua recomendação no início do espetáculo, porém faz piadas no decorrer do texto retratando sua frustração para com as expectativas do público, e assassina um texto que poderia ser teatral, e mesmo assim é aclamado pelo público, que ora o odeia em cena, ora o adora. O texto, talvez não tenha estrutura, porque tem o propósito de tentar estruturar-se em alguma apresentação, onde o público não seja leviano à televisão, ou ao humor barato, mas ele desestrutura a plateia.

O ator coloca uma lupa sobre o público, porém de uma forma um pouco grosseira, sem importar-se com limites, abusa de sua liberdade humorística para explicar quem é o público do teatro, e porque eles esperavam um ator de televisão, ao invés do homem que cresceu no teatro. Em diversos momentos o público gargalhava sei lá do que, pois não havia motivo, nem para humor, nem para aplausos. Eduardo Sterblitch é um ator, porém ele mesmo precisa optar por desvincular sua imagem de seus personagens. Quando um ator não consegue passar a mensagem de um personagem sem retratar o personagem anterior, sua missão com o texto falhou.

O ator frustrado que subiu ao palco para revelar o que a plateia fazia no lugar de público, não me fez rir, assim como me trouxe momentos de reflexão. Não há como recomendar, ou não recomendar o espetáculo, até porque não se sabe se ele continuará as apresentações. O fato é que esta é uma peça inédita, com um “texto” que se constrói e se destrói em cena. Nem mesmo a resenha da revista Veja conseguiu definir o espetáculo, aliás, as resenhas da revista Veja nunca conseguem definir nada, talvez isso seja fruto de sua superficialidade jornalística. O texto do espetáculo utiliza quase todos os recursos do humor, menos a inteligência, pois ainda há uma lacuna desnecessária no roteiro, uma falta de sentido que fica perdida pelo caminho. A peça só atraiu o público pela fama televisiva do ator, esta que ele gostaria de apagar enquanto estivesse sob as ribaltas do teatro. Há uma beleza cênica, de figurino, de movimento, mas estão perdidas num texto que navega sobre uma interrogação. O ator fala muita coisa, e não interpreta nada. O espetáculo resume-se num número de stand up, com recursos e produção, para ser um monólogo é necessário um texto de monólogo. Mas, ao mesmo tempo, Sterblitch revela-se um clown do contemporâneo, um código da sociedade do espetáculo. E ser um clown é uma grande arte.

O cenário de Márcia Moon foi desenhado com preocupação ao clima do texto, e construído com perfeição. Durante o espetáculo uma banda estilo Jazz acompanha o ator, o interrompendo para apresentações musicais, esboçando um show a parte, com a direção musical de Marcinho Eiras, que traz ao palco três guitarras que são tocadas simultaneamente por ele. Os músicos trazem a elegância da música americana, a força da voz negra paralela as perfeitas cifras solfejadas e dedilhadas nos instrumentos. A iluminação de Osvaldo Vieira “Pelé” é uma saborosa fatia do espetáculo, que foi realizado pela EBPZ Empreendimentos Culturais.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Roberto Carlos lota shows em São Paulo


Não é novidade para ninguém que Roberto Carlos mais uma vez deslocou inúmeros fãs para a plateia de seu show, que desta vez aconteceu no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo. Sempre com preços salgados, os ingressos esgotaram em poucos dias, havendo a necessidade de abrirem novas datas de apresentações, que só deram mais fôlego ao artista, que embalou sucessos de sua majestosa carreira.

O show, que deselegantemente começou com meia hora de atraso (no último sábado), iniciou-se com a orquestra entoando “Como é Grande o Meu Amor Por Você”, composição de Roberto feita em 1967, quando preparava um novo LP. Naquele instante o público era o coral, que anunciava o Rei com composições muito conhecidas, mas incansavelmente cantadas. A iluminação do show foi estrategicamente içada em barras e realizou um espetáculo a parte.

O roteiro do show ficou por conta de canções antigas que reuniu as mais saudosas vozes a cantarem, mas o clima romântico, típico das recentes apresentações de Roberto, foi substituído pelo embalo do rock’n roll, com canções do tipo “Quando”, uma das minhas preferidas de todos os álbuns do cantor.

Roberto Carlos nunca se anunciou como sendo Rei, porém creio que hoje lhe agrada esse título, como forma de carinho dos fãs e recíproca dos críticos. A verdade é que o palco é sem dúvidas o império de Roberto, e o público o coroa acertando todas as letras de suas canções. As rosas encerraram o espetáculo sendo lançadas para os fãs, todas com um beijo do Rei.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Chiquinha Gonzaga renasce nos dedos de jovens pianistas


Não teria sido possível realizar um encontro entre Chiquinha Gonzaga e os jovens pianistas Alexandre Dias e Wandrei Braga, pois antes mesmo que os dois poetas das teclas tivessem vindo ao mundo, a primeira mulher a compor uma canção no Brasil deixara os saraus da vida, para os do céu. Foi aos onze anos de idade, que Chiquinha começou a compor, e agora, em 2011, os pianistas Alexandre e Wandrei reuniram, junto ao Instituto Moreira Salles, um acervo digital da compositora, e o lançaram nas cidades do Rio de Janeiro, Brasília e encerraram em São Paulo.

Francisca Edwiges Neves Gonzaga, conhecida como Chiquinha Gonzaga, nasceu no ano de 1847, filha do general do Exército Imperial Brasileiro com uma humilde negra, que passou-lhe nos genes o gosto pelos ritmos populares, entoados em rodas pelos escravos. Chiquinha frequentava os encontros destes povos e buscava inspirações para suas futuras obras. A primeira mulher a se expor tocando um instrumento e compondo canções separou-se do primeiro marido e foi impedida de criar os filhos menores, ela passou a tocar em troca do sustento do filho mais velho, o que pôde criar.

Chiquinha introduziu as mais influentes partituras no teatro brasileiro e fundou a Sociedade Brasileira dos Autores Teatrais, ao todo ela compôs 77 músicas para peças. O pianista Alexandre Dias, em sua apresentação em São Paulo deixou a força de Chiquinha Gonzaga tomar-lhe no palco e interpretou uma dessas peças, tocando a introdução do primeiro ato de “Fantasia”, o que lhe rendeu ovação e muitos aplausos. Aquela interpretação foi além do que se pode emocionar, o pianista compactuou com a compositora o mesmo talento em frente a um piano, e demonstrou a afinidade com as teclas e a paixão que sente por elas.

Chiquinha Gonzaga adentrou com suas composições no Palácio do Catete, sede do Governo brasileiro no Rio de Janeiro. Ela era amiga da primeira-dama Nair de Tefé, que casou-se com o presidente Hermes da Fonseca. Chiquinha foi duramente criticada por tocar um maxixe nas dependências do Palácio, e mesmo assim tornou esplêndido diversos ritmos que fizeram sucesso em seus dedos pelas teclas, as polcas, valsas, tangos, fados, lundus, quadrilhas e serenatas, além do choro, que marcou sua carreira a intitulando como primeira chorona brasileira. As canções “Linda Morena” e “Carijó” foram relembradas por Alexandre Dias, com total maestria.

O pianista Wandrei Braga calou-me de emoção e deixou meus ouvidos chegarem ao piano que posto sobre o palco vazava aquela famosa composição de Chiquinha, “Lua Branca”, também trouxe ao teatro as canções divinas “Agnus Dei”, “Ave Maria” e “Prece a Nossa Senhora das Dores” em adaptações para piano solo. Os olhos de Chiquinha Gonzaga passeavam pelo palco celebrando-se no cenário ao fundo, que mostrava-nos silhuetas de partituras, frases e fotos da compositora. A polca “Atraente”, grande sucesso, contagiava-me com a vontade de sair bailando pelo teatro. O sorriso tímido de Chiquinha era quase igual a timidez de Wandrei, que cada vez que olhava para o público buscava o fôlego vivaz para mais uma canção que beijava o lindo piano.

Ninguém jamais me fará tirar da cabeça que o piano é o mais lindo entre os instrumentos, ele é a regência de vorazes orquestras e o coração destes dois pianistas, Alexandre Dias e Wandrei Braga, que deram mais uma vez os merecidos aplausos e méritos a Chiquinha Gonzaga. Ontem (17) o suntuoso Teatro Humboldt estava vazio, mas ganhou as poltronas com cada nota que corria as fileiras. É uma pena que a cultura ainda atinja poucos, e a informação sobre estes eventos não seja valorizada. Os ingressos não custavam mais do que 10 reais, além disso um quilo de alimento substituía o valor.

O acervo digital, reunido pelos pianistas e o Instituto Moreira Salles, está livre para acesso e nele encontram-se as obras inteiras da compositora que estreou a música popular brasileira, no site www.chiquinhagonzaga.com.br. O projeto é incentivado pelo Ministério da Cultura e patrocinado pela Natura. Espero sempre os encontrar por todo canto, espelhando a musicalidade popular de Chiquinha Gonzaga e sua genial maestria de fazer música, regendo-se pelos galãs dedos de Alexandre e Wandrei. Assim como ela entrou pra história, os dois continuam tecendo-a e fazendo-a.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Elisa Lucinda e Chiquinha Gonzaga, por Nyldo Moreira

Poema: Elisa Lucinda
Música: Chiquinha Gonzaga
Interpretação: Nyldo Moreira

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

“Três Possibilidades”, espetáculo apresenta nova direção em São Paulo


A comédia romântica, “Três Possibilidades” encara mais uma temporada na capital paulista, desta vez, com a direção de Marcos Wainberg, que redesenha o palco e projeta muito mais um romance, do que uma comédia. O triângulo estreia Sheila Mello, ainda inexperiente, e a dupla Tiago Pessoa e Guilherme Chelucci.

O texto é uma livre adaptação do filme Três Formas de Amar, e leva ao palco Leo, interpretado por Tiago Pessoa, o personagem é um jovem apaixonado pela literatura, e divide o apartamento com Vinicius, vivido por Guilherme Chelucci. Leo demonstra seu interesse sexual e amoroso por Vinicius, e é sempre interrompido por Alexia, interpretada por Sheila Mello, a nova moradora do apartamento. Os três prometem manter a amizade, não infringindo-a com qualquer outro tipo de relação, porém as confusões apimentam uma leve comédia à partir de alguns desacordos.

A adaptação já foi montada em outras temporadas, porém foi ganhando experiência ao longo de novas direções e a mudança de atores. Em cartaz no Teatro Ressurreição, a nova montagem retrata um clima mais intimista, sexual e romântico. A peça toca num tema amplo e tão discutido recentemente, a homossexualidade. É importante que textos desta natureza ganhem os palcos do teatro brasileiro, já que a arte é um instrumento pedagógico, além do entretenimento que proporciona.

O diretor Marcos Wainberg reserva-se da simplicidade cênica, o que facilita a evolução dos atores no palco, além de tornar mais íntima a relação dos personagens. Quando acontece de uma peça abusar demais do cenário, da luz e do figurino, perde-se o texto e ganha-se um deslumbre desnecessário. A iluminação de Robson Araujo é pontual, delineada com arte e precisão recobre as cenas climatizando o espetáculo com o apelo antes não encontrado no texto. A montagem de Três Possibilidades, que esteve em cartaz no Teatro Bibi Ferreira, trazia todos os elementos de cena juntos, que atrapalhavam o texto. Agora está tudo de acordo. O espetáculo tem a trilha sonora adequada e as trocas de roupas necessárias.

Sheila Mello demonstra muito bem que o palco não é mais só para dançar, mas a ex loira do É o Tcham ainda não sabe bem como colocar um texto na prática do palco, falta-lhe melhor direcionamento e naturalidade. Um ator precisa viver um personagem no palco, e não a leitura do texto. Porém, sua desenvoltura em momentos mais picantes do espetáculo merece aplausos. Eu ainda não tinha visto Guilherme Chelucci no teatro, em sua primeira entrada parecia que a coxia lhe puxaria de volta para trás, porém com o tempo no palco o texto foi tornando-se personagem e o corpo ganhou presença nas cenas. Ele é o foco do humor na peça e faz isso muito bem. Tiago Pessoa é o personagem que aguça as confusões do espetáculo, tem ótima presença de palco e total afinidade com os outros atores. Vale a pena sair de casa para assisti-lo, quero ainda vê-lo em outras produções que levem sua marca, pois é fácil notar sua digital neste projeto.

O espetáculo é um projeto da Pessoa Produção e Vellado Produção, em cartaz no Teatro Ressurreição, em São Paulo. As sextas e sábados, 23h30. Os ingressos custam entre R$ 40,0 e 20,0 à venda na bilheteria do teatro ou pelo Ingresso.com, na internet. “Três Possibilidades” não me arrancou tantas risadas, por ser mais um texto de reflexão, é um romance sem o ardor de um drama. Acredito que tenha sido essa a proposta.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Elisa Lucinda em “Parem de Falar Mal da Rotina”


Há dez anos Elisa Lucinda colocou nos palcos uma das produções mais compatíveis com o paladar do público, “Parem de Falar Mal da Rotina”, em cartaz no Teatro Vivo, é um dos espetáculos que mais merecem aplausos nos ultimos tempos. Com direção e roteiro da própria atriz, Elisa utiliza a voz para declamar seus poemas mais tácitos e verossímeis, além de aproximar a plateia da própria realidade.

O espetáculo, que extravasa o tempo comum de peças de teatro, passa por uma intimista relação entre o público e a atriz. Não há texto de escritor, há palavras de um cotidiano, frases cômicas de uma mulher sábia, poemas aquecidos à valentia de uma afro expressiva e não acomodada aos seus direitos. Elisa não pincela por temas, ela vai além do que os limites cravam na sociedade, “Parem de Falar Mal da Rotina” expõe as verdades aos sorrisos dos espectadores de suas próprias histórias.

A peça é uma inspiração dos livros de Elisa, “O Semelhante”, “Eu Te Amo e suas Estreias” e “A Fúria da Beleza”, que resultou num banho de palavras despejadas à bem temperada iluminação que pontua os assuntos ditos pela personagem. Na verdade Elisa não faz uma personagem, seu olhar, sorriso, lágrimas, dor e amor saem do coração brechó da própria atriz. Cada história nasce do observatório de Elisa, das andanças de uma poeta que lhe faz escrever a cara do brasileiro, os costumes mundanos e as críticas mais do que sociais, sociáveis. Sim, pois o humor do espetáculo leva a plateia ao palco e lança ao público suas verdades, o jeito preconceituoso de cada um, os orgulhos, a corrupção e a vaidade.

“Parem de Falar Mal da Rotina” esmiúça os cárceres que celam o cotidiano, captam em uma só mulher e em suas observações os comportamentos do ser humano, tudo com uma comicidade incrível, que eleva Elisa Lucinda à catarse artística de sua história na dramaturgia. O cenário é a própria casa. O banho, que acorda o espetáculo, já traz a atriz nua ao palco, transformando o trabalho de interpretação ainda mais excepcional. Ela fica à vontade e aproveita o espaço que o texto lhe promove para visitar cada ponto do cenário, quando critíca os padrões, que não deveriam ser padrões, as hipocrisias e, como o título da peça diz, a rotina que é de cada um de nós.

No texto não há lacuna, as linhas do script são passadas pelas agulhas afiadas regidas pela voz grauda de Elisa, que salienta com poemas e costura com canções que libertam o roteiro. A atriz tem a vêemencia vocal que abrange a mistura de mpb, samba, bossa e jazz num ritmo batucado por seu próprio timbre. Enfim, o espetáculo já foi até chamado, por espectadores, de uma missa da realidade brasileira. Isso resume tudo.

A peça “Parem de Falar Mal da Rotina” é um impecável trabalho da multi Elisa Lucinda, em cartaz no respeitoso Teatro Vivo, em São Paulo. A temporada é curta e apresentada aos sábados às 21h e domingo às 19h. Os ingressos custam R$ 50,0 e podem ser comprados pela internet no Ingresso Rápido, ou na bilheteria do teatro. O espetáculo é patrocinado pelo Vivo Encena.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Beatriz Segall e Herson Capri em “Conversando com Mamãe”


A capital paulista recebe mais uma saborosa produção de Sandro Chain, a comédia “Conversando com Mamãe”, longa do argentino Santiago Carlos Oves, com a versão teatral de Jordi Galceran, tradução de Pedro Freire e a leve e precisa direção de Susana Garcia. O roteiro é sensível e cômico, capaz de emocionar com muito humor.

Beatriz Segall dá vida à graciosa mãe do espetáculo, com fantástica interpretação e um incrível trabalho de cenas ao lado de Herson Capri, que vive o filho Jaime. O roteiro leva o público ao palco, retrata o ser materno que há em toda mãe e as verdadeiras características de um filho, permitindo-nos a imediata identificação. Jaime era um homem de negócios, frustrado pela crise economica tenta salvar as finanças idealizando a venda do apartamento em que mora sua mãe, desde aí começa a confusão familiar contracenada entre dois personagens. A grande implicancia da irredutível mãe é com a sogra de seu filho, com quem faz inúmeras piadas e arrebata a graça do público. Diversos assuntos familiares são postos à cheque no espetáculo, enquanto Jaime é silenciado pelas histórias da clássica mamãe, mas que também não deixa de lado o marcante perfil irreverente.

O texto é simplório, não emplaca nenhum clímax, porém torna-se próximo ao público enquanto revela a intensa relação entre mãe e filho, além de mostrar a estupenda comicidade de Beatriz, facilmente dirigida por Susana Garcia. É fácil levar ao gosto do público uma senhora simpática, simples, sensível e nada puritana, e isso é a madura inteligência deste roteiro. Capri banha-se da sabedoria cênica de sua companheira de palco, e também mostra o versátil e firme ator escolhido categoricamente para o papel.

Paulo César Medeiros é responsável pela arte moderna da luz, vestindo o palco com cores simples e tons pontuais para as cenas. O cenário de Marcos Flaksman retrata ligeiramente a classe social que torna mais simples a relação entre os personagens, e que faz o público sentir-se em casa. Kalma Murtinho é a figurinista das trocas que regam o roteiro com total harmonia. A sensível trilha sonora de Alexandre Elias contempla ainda mais a direção de Susana, que rege este grupo compatível ao seu brilhante trabalho.

Os atores demonstram perfeita sintonia, necessária para a relação proposta pelo texto. Os movimentos, tons de voz e a concentração dramática de Beatriz e Capri vigoram o espetáculo com a bela e respeitosa construção do humor. As cenas ganham sentido, enquanto o roteiro desenrola-se pela sabedoria artística de uma das melhores duplas em cartaz atualmente. Cada gesto e fala aproximam o público para uma realidade retratada pelo espelho que é “Conversando com Mamãe”.

A peça está em cartaz no Teatro Folha, em São Paulo, sob a realização da Chaim Produções e Capri Produções, com uma folgada e disputada temporada até 18 de dezembro. O preço para sextas às 21h30 é de R$ 50,0 e R$ 60,0. E aos sábados às 20h e 22h e domingos às 19h30 é de R$ 60,0 e R$ 70,0. Os ingressos são vendidos pela internet, no Ingresso.com e na bilheteria do teatro. “Conversando com Mamãe” é patrocinado pelo Banco Volkswagen.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Ary Toledo a todo vapor, de volta à São Paulo


Ary Toledo está em cartaz no Teatro Silvio Romero, em São Paulo, com suas anedotas e a interpretação de um veterano garimpeiro do humor. O artista arrebata gargalhadas do público, que já espera por sua irreverência e um dos melhores timings da história do teatro brasileiro.

O espetáculo conta com diversas piadas sobre sogras, português, política e a criatividade do brasileiro, além de cutucar os temas mais polêmicos de forma cômica e sem nenhuma censura. Ary aproveita sua experiência para banhar o palco com seu espaço cênico, as vozes e centenas de interpretações emitidas pelo ator engrandecem sua forma única de fazer humor.

Ary é da época em que se enfrentava o AI-5, e de forma peculiar contava piadas que atacavam diretamente o ato. Ele foi preso, mas nunca recriminado por sua arte. Apesar do apelo sexual que seus roteiros seguem, o que lhe caracterizou um piadista de anedotas, Ary é um dos comediantes mais adorados pelo público, por saber fazer rir sem precisar atrapalhar a arte teatral, como temos visto em alguns “atores”, que não sabem ao menos fazer a cena acontecer. Ary Toledo foi um dos primeiros e mais corajosos humoristas a ensinarem, de fato, a fazer o humor com naturalidade – com um banquinho, um microfone, e o talento sobre o palco.




Vinicius de Moraes e Elis Regina foram os conselheiros para que Ary seguisse a carreira de humorista. Quando ele chegou a São Paulo, atuou no Teatro de Arena e passou a compor canções, tornando seu talento ainda mais vasto.


Agora, Ary está de volta aos palcos paulistanos com mais obscenidades, músicas de sua peculiar composição e tudo que a experiência lhe permite falar com mais vontade. A ótima e pontual iluminação do espetáculo é o ponto alto para auxiliar o roteiro e a interpretação. O Monólogo do F, famosa interpretação do ator, reúne mais de 500 palavras iniciadas apenas por essa letra. O artista rima piadas à atualidade brasileira, respinga sua inteligência em cada história contada no roteiro e faz de seu humor cada vez mais exuberante.

Ary Toledo está em cartaz no Teatro Silvio Romero, em São Paulo, com apresentações sextas e sábados, às 21h e aos domingos, às 19h. O ingresso custa R$ 50,0 e pode ser comprado na bilheteria do teatro, apenas em dinheiro (forma rústica, que deve ser melhorada para conforto e melhor oferta de público). O humorista também segue em turnê em outras cidades.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

“Varekai”, a superprodução do Cirque du Soleil estreia em São Paulo


Chegou ao Brasil o maior circo do mundo, com 58 perfomers, uma tenda gigantesca pesando mais de 5 mil kilos e muita acrobacia e cores. Varekai foi o espetáculo escolhido para desembarcar em São Paulo, com o Cirque du Soleil, sob a criação e direção de Dominic Champagne, um mundo de etnias resume-se a um perfeito tema cigano sobre um esplêndido picadeiro.

“Onde quer que seja”, é o significado de Varekai na linguagem cigana, assim Dominic presta a grandiosa homenagem a alma nômade, à sedutora e animada vida gitana, com personagens enigmáticos, engraçados e belos. Para o Cirque, os clows não são somente personagens com narizes vermelhos, pois eles vão muito além disso. Com o roteiro, é possível viajar por inúmeros estilos musicais, onde o som embala-se pelas cenas, ao contrário dos musicais teatrais. Porém, Varekai também é teatro, balé, contorcionismo e acrobacia. Varekai é um globo de culturas, vislumbrando o batuque cigano descoberto por Ícaro, que encontra-se em seu desejo de viver sem agregar limites, renascendo em branco inocente e vulneravelmente conquistado pela Noiva, a engrenagem de sua metamorfose.

O humor, como em toda arte circense, desce ao espetáculo como um bom gole refrescante, os clowns interagem com o público, o convida a brincar no picadeiro e fazem da simplicidade a elegância do riso. Num arco, desce do topo da tenda uma bela moça variando movimentos, o Aerial Hoop é uma permormance conhecida, mas sempre muito ousada pelo equilíbrio. Os Icarian Games também trazem a força dos corpos e equilibram-se entre a sintonia de cada artista. A Georgian Dance exibe um ato de batidas ciganas com coreografias históricas inspiradas nas lutas Geórgicas contra as forças que tentaram dominar o seu território. O Solo on Crutches nos permite viajar na imaginação do criador, um homem com duas muletas evoluí-se em movimentos impulsionados pelo entusiasmo e equilíbrio.

A iluminação, de Nol Van Genuchten, é uma cascata de ideias, de cores sintilantes e estudadas para desenhar as cenas e refletir-se no cenário florestal de árvores que ganham sentido pelas escaladas dos personagens observadores, assinado por Stéphane Roy. O palco conta com cinco alçapões e embocam os personagens iludindo o público para o sumiço destes. O The Catwalk é um caminho suspenso, por onde é possível refugiar personagens e encaminhar aparelhos, sua estrutura lembra uma imensa espinha de um pássaro, tornando o sentido paralelo ao tema de liberdade do roteiro. No alto, uma passagem chamada The Lookout recolhe personagens e revelam novas criaturas que descobrem-se ao mundo de Varekai, que para Ícaro tornam-se familiares com o tempo.

O Guia é o personagem que traz a luz aos caminhos, sempre acompanhado do Vigia, emplacando aplausos pela ótima interpretação de humor. Nosso idioma é sutilmente arriscado pelos personagens, que demonstram respeito à turnê. O Vigia é um cientista que reserva coleções de memórias do mundo, traz a cultura dos sons e dos sinais para a comunicação com os demais personagens. Os trapézios são de praxe nos roteiros circenses, quatro jovens exibem a perfeita sincronia no Triple Trapeze, enquanto os Water Meteors registram a agilidade de movimentos dos pequenos orientais sustendando cordas com bolas metálicas nas extremidades. O Slippery Surface traz acrobatas que deslizam no palco, com diversas cores e efeitos, e os artistas mais ousados do espetáculo realizam um número de aterrisagem, com o Russian Swings, embalados por balanços que os arremeçam simultaneamente um contra o outro. Uma jovem chega ao palco com o Handbalancing on Canes, suportado o próprio corpo sobre totens, desafiando a flexibilidade e a força. Ela despede-se do espetáculo levando Ícaro ao ar, que antes abria o show com uma rede suspensa valseando ao ar.

Varekai é um beijo na arte de fazer arte, um relacionamento íntimo com os figurinos exuberantes de Eiko Ishioda, mesclando tons vívidos em lycras nobres, junto ao make-up inigualável de Nathalie Gagné, que demonstra o design em rostos. Varekai é a música de todos os cantos do mundo, dos sopros europeus, dos batuques latinos e gitanos, das guitarras americanas e do lirismo nato do Cirque du Soleil, nas vozes dos personagens: O Patriarca e A Musa. Varekai é o embrenhar do homem na curiosidade, debruçado ao calor de um vulcão. É um olhar analítico sobre as danças e as belezas refletidas em tons vívidos de iluminação, é ainda uma direção fantástica da variedade teatral, burlesca e clássica.

Varekai, do Cirque du Soleil, estreou em Montreal, no ano de 2002 e já foi visto por mais de 6 milhões de pessoas em mais de 15 países. O espetáculo está em São Paulo, com a Grand Chapiteau (Grande Tenda), no Parque Villa Lobos, pela realização da Time For Fun e o patrocínio exclusivo do Bradesco. Os ingressos variam entre R$ 395,0 e 140,0 para apresentações de terças aos domingos. Em turnê, Varekai ficará em São Paulo até novembro, em seguida partirá para o Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Recife, Salvador, Curitiba e Porto Alegre.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

“Hedwig e o centímetro enfurecido”: rock, amor e traição


Eu sou suspeito para falar sobre o roteiro de Hedwig, mesmo sendo um defensor das produções nacionais, tenho que dobrar-me a este belo e seguro texto. O musical desembarcou no último final de semana em São Paulo, após temporada no Rio de Janeiro, sob a ótima e notável direção de Evandro Mesquita, que distribuí sua experiência musical aos acordes do espetáculo.

Hansel era um alemão apaixonado pelo rádio e as músicas, foi criado pela mãe na Alemanha Ocidental e acompanhou a queda do muro de Berlin com certo desconforto. Ainda na juventude, Hansel conhece o militar Luther, interpretado pela multi Eline Porto, que reveza-se em papéis masculinos. O recruta promete ao jovem casá-lo e viverem nos EUA, para isso Hansel submete-se a uma cirurgia de mudança de sexo. O resultado foi o pior possível, o novo sexo lhe trouxe perturbações estéticas, quanto ao centímetro que lhe restou entre as pernas. Sua nova identidade passa a ser Hedwig, a traída e fascinada por rock.

O texto de John Cameron Mitchell é saboroso, quente, irreverente e bem costurado. Em algumas cenas provoca confusão, mas ao decorrer do espetáculo a história volta ao eixo. Stephen Trask é o pai das letras e músicas em versão norte-americana, traduzidas por Jonas Calmon Klabin. A musicalidade estronda o teatro com um rock pesado e ao mesmo tempo sensível, há um balanço dos acordes, que em algumas vezes repetem-se dando a impressão de estarmos ouvindo o mesmo som. É tudo muito bom, mas seria ótimo se as notas não ficassem, em algumas músicas, tão similares. É inegável o talento musical de Evandro Mesquita, e surpreendente na direção do espetacular “Hedwig e o centímetro enfurecido”, que sutilmemente movimenta com versatilidade os atores no palco, que ora também comovem a sensualidade de seus corpos envaidecendo a personagem.

Hedwig é vivida em duplicidade artística, perfeita direção de cena e identidade que cada ator deposita ao personagem. Pierre Baitelli não deixa nenhuma nota fora da pauta, cada verso passa por sua afinada voz que não deixa de lado a rigidez do compasso musical. Os movimentos em cena, as expressões muito bem desenhadas, os gestos e as passagens entre as personagens elevam a qualidade do espetáculo. Assim exerce o ofício árduo de cenas irreverentes, agitadas e emocionates, o ator Felipe Carvalhido, que vive Hedwig junto ao Pierre. Carvalhido enriquece as cenas com seu olhar cálido, que a roqueira exige ao personagem. Cada passo no palco arranca-lhe qualquer timidez e ensurdesse os olhos de qualquer um, cegando nossa audição. Os sentidos invertem-se e revertem-se, enquanto tudo no espetáculo nos chama a atenção. E ali é possível rir e concentrar-se na emoção que o humor promove. São os olhos do público que dizem isso, enquanto guardam emoções e soltam os risos. A dupla tem a alta sensibilidade de fazer o público assistir objetos que não estão em cena.

O cenário é impagável, adequado e de muito bom gosto. A arte medieval e metálica do palco é assinada por Suzane Queiroz, enquanto a iluminação de Luiz Paulo Nenen é pontual e pincela a cena como numa impecável produção de rock.O figurino de Marta Reis exibe um desfile em tons exuberantes e cortes “punks”, como assim surgiam os estilos exóticos da época. Daniel Reggio é responsável pelas perucas e maquiagem - adereços que participam com destaque no espetáculo.

Hedwig tem total “força na peruca”, capaz de sofrer de amor, mesmo que com a mesma resistencia de Simone de Beavouir, sua dureza em cena é articulada com a peculiaridade de cada ator, distribuindo a irreverente personalidade da roqueira. Danilo Timm, ao lado de Evandro Mesquita, dirige a musicalidade vívida que reveza entre as consistentes vozes de Felipe Carvalhido e Pierre Baitelli. Flávio Senna Neto é o produtor musical. No palco estão os talentosos artistas da música, que ao vivo soam um contagiante som de seus instrumentos: Diego Andrade, na bateria, Fabrizio Iorio, no teclado, Melvin Ribeiro, no baixo e Pedro Nogueira, na guitarra. Eline Porto divide seu talento contando a história de personagens que passaram pela vida de Hedwig, encanta enquanto canta e interpreta Yitzhak.

É um dos poucos espetáculos que ouso recomendar, a produção de Dan Klabin e Jonas Calmon Klabin é digna dos sinceros aplausos que saudam o show. “Hedwig e o centímetro enfurecido” está em cartaz no Teatro Nair Bello, no Shopping Frei Caneca, em São Paulo, até o dia 16 de setembro. Os ingressos podem ser comprados na bilheteria do teatro ou no Ingresso.com, ao valor de R$ 60,0. Horário: Sexta, às 21h30. Sábado, às 21h e domingo, às 18h. O projeto é realizado pela Oz., e registrado no Ministério da Cultura, com o patrocínio da Riachuelo e da Oi.