quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Entre festa e baixaria, o carnaval se consagra nos quatro cantos do Brasil


O carnaval no Brasil manteve seus constantes e brilhantes personagens, apresentou a imponência das escolas de samba, no Rio e em São Paulo, arrastou milhares de pessoas atrás dos trios elétricos em Salvador, fez brincadeira com os bonecos de Olinda e agitou a Praça do Marco Zero no Recife. Mas, foi em São Paulo que o carnaval teve seu desfeche trágico e em busca do que é justo, como os finais de contos shakespearianos.

Apesar de não termos mais os vibrantes bailinhos de carnaval, os blocos cariocas ainda persistem e carregam inúmeros foliões pela Avenida Rio Branco, inclusive, um deles, o Cacique de Ramos, foi homenageado com esplendor pela Mangueira, com a histórica parada de três minutos da bateria, com um dos mais exuberantes enredos deste ano, puxado por Alcione. A Portela também estendeu novamente seu tradicional azul e branco pela Sapucaí, e entregou a Unidos da Tijuca a responsabilidade de, no dia seguinte, fazer um carnaval impecável, e o fez.

O Recife não deixou por menos, e lotou a Praça do Marco Zero, ao som de Beth Carvalho, Lenine, Lulu Santos, Elba Ramalho, e tantos outros, em homenagem ao histórico Alceu Valença. Elevou-se a temperatura e cravou na história mais um brilhante carnaval. Enquanto Salvador coroava novamente a eterna rainha do carnaval baiano, Daniela Mercury, que esbanjou voz pelos circuitos e reverenciou Jorge Amado e Luiz Gonzaga, com uma homenagem primorosa. Ivete Sangalo, detonou, evidentemente no bom sentido, entre a Barra, Ondina, e Campo Grande. A cantora mais popular do Brasil mais uma vez emplacou seus sucessos e levantou Salvador. Entre atabaques e o maior coral, com, ou sem abadá, o carnaval mais agitado do mundo coloriu a beira mar de todas as culturas.

As ladeiras de Olinda receberam as cores dos bonecos gigantes e impecavelmente esculpidos. O Galo da Madrugada no Recife, e o Homem da Meia-Noite em Olinda traduzem com força a cultura brasileira. Em Manaus, a festa do boi garantiu a noitada carnavalesca dos amazonenses, e colocou na avenida o batuque do boi-bumbá, além das escolas de samba locais.

Em São Paulo a passarela do samba, no Anhembi, deu um show de desfile, com destaque as tradicionais escolas de samba da cidade, que envaideceram a pauliceia, com as mulheres da Vai-Vai, a baianidade de Jorge Amado, na Mocidade, além da Mancha Verde, a Gaviões da Fiel e o tropicalismo homenageado pela Águia de Ouro. A comparação entre os carnavais paulista e carioca é estupidamente insistida por muitos que se arriscam a dar ignorantes pitacos, é preciso compreender que cada cidade tem sua identidade, seus registros históricos e a criatividade que lhes é permitida colocar na avenida. Enquanto o povo não for carnavalesco, não compreenderei essa insistente comparação. Mas caio na voz do povo, quando ouço coisas que tenho que concordar, ao ver “estrelas” arrastando os pés, ao invés de sambar, enfeitando o lugar de madrinhas e rainhas de bateria. Ana Furtado à frente da bateria da Grande Rio, é como ver um escandaloso quadro falso de Tarsila do Amaral.

Durante a apuração de notas do desfile do grupo especial de São Paulo os ânimos se exaltaram e o mais temido aconteceu, a revolta entre os dirigentes das escolas, a torcida e a liga de escolas. Há anos é possível notar a inexperiência dos jurados, que entre o Rio e São Paulo julgam os desfiles das escolas, e distribuem notas irreais, sabe-se lá pela ignorância, ou mesmo uma “além crítica”. No julgamento dos desfiles das duas capitais é possível distribuir notas contando por décimos, porém, eu gostaria muito de entender como é possível a nota 9.9 em uma alegoria, ou fantasia, ou qualquer outro quesito, principalmente bateria. O que significa este um décimo que não pôde ser dado? Será algum botão que caiu de alguma fantasia e um dos “olhos biônicos” dos jurados conseguiu enxergar?

No último quesito, que julgaria Comissão de Frente, Tiago Faria, um dos diretores da Império de Casa Verde, avançou sobre a mesa onde eram cantadas as notas e rasgou os envelopes que estavam sendo lidos, além disso, outros integrantes de outras escolas jogou para o alto outros envelopes e clamaram por justiça na apuração. Sou completamente contra qualquer espécie de violência, como a queima de carros alegóricos, pela torcida organizada da Gaviões da Fiel, e depredações, porém há tempos que a Liga das Escolas de Samba de São Paulo mostra sua ineficácia na seleção de seus jurados, que ainda não aprenderam a serem justos julgadores. Volto a dizer, sou contra o vandalismo e a violência, mas imagino quantas pessoas sentiram vontade de fazer o que Tiago fez. Não dá para entender a diferença entre notas de diferentes jurados, não dá para entender que tanta beleza posta na avenida seja depredada pelos próprios julgadores em notas tão surreais e avacalhadas.

A Mocidade Alegre, de São Paulo, terminou a confusão como campeã do carnaval, após uma longa reunião entre os presidentes das escolas de samba. A Rosas de Ouro levou o segundo lugar, com uma homenagem a Roberto Justos, que sinceramente, não entendi, acho desnecessária uma homenagem a alguém que apesar de representar com elegância a publicidade do Brasil, mas que ainda não entra como justificativa a um enredo de escola de samba. É neste instante que o Rio de Janeiro saí a frente, com sua tradição em sambas-enredo. O desfile foi impecável, mas o tema inexplicável, mesmo que tentem me explicar, nego-me a aceitar uma homenagem ao Justos (nada contra ele).

Salvador, que enfrentou uma greve de policiais militares, resultada pelo réles governo do estado, abençoou os circuitos com o afoxé do Ilê Ayê e os Filhos de Gandhi, para trazerem as estrelas baianas que banham a cultura do País. Parabéns a Olinda e ao Recife, que emplacam anualmente sua tradição mais linda. O Rio de Janeiro, que escolherá nesta quarta (22) a campeã, ainda traz o melhor do samba na avenida e rebuscou a Mangueira e a Portela de todos os tempos. São Paulo, o samba, sem dúvidas, está no coração desta cidade, é uma pena que ainda falta chegar à inteligência de uma Liga que elege uma mesma presidência de escolas, para presidir sua comitiva, e que ainda não aprenderam a organizar um carnaval à altura do trabalho das comunidades que derramam lágrimas e samba no pé na avenida. Não acho que as escolas de samba “não sabem perder”, como disse o presidente da Liga, Paulo Sérgio Ferreira, que também preside a escola Unidos de Vila Maria. Eu tenho certeza que as escolas sabem ganhar, pois diariamente vencem em seus barracões apertados, sob o risco de perderem suas alegorias em incêndios e enchentes, onde não há a mínima preocupação da fanha prefeitura do município. O maior teatro do mundo chama-se carnaval, e o governo ainda não quis enxergar isso, nem quem o “organiza”, pois as preocupações andam girando em torno de outros lucros.

Créditos das fotos: TV Globo (Tiago Faria) / Vanderlei Almeida-G1 (Carro Cacique de Ramos da Mangueira / João Carlos Mazella-Agência Estado (Galo da Madrugada) / Flavio Morais-G1 (Mestre-Sala e Porta-Bandeira da Vai-Vai) / Fábio Cerati (Trio elétrico de Daniela Mercury)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Paulinho da Viola recorda seus sambas no Sesc Pinheiros, em SP


O instrumentista e compositor, Paulinho da Viola, apresentou-se na semana passada no Teatro Paulo Autran, do Sesc Pinheiros, e recordou com maestria seus primorosos sucessos. Não ficaram de fora canções como “Dança da Solidão”, “Timoneiro” e “Brancas e Pretas”, que tomaram logo conta da lembrança de todos.

Com a casa cheia e arranjos contagiantes e emocionantes, Paulinho abriu os trabalhos ao lado dos músicos Cristóvão Bastos (piano), Dininho Silva (baixo), Celsinho Silva (pandeiro), Mário Sève (sopros), Hércules (bateria) e João Rabello (violão). O cantor embala o ritmo do samba em todas as épocas de sua vasta carreira e mantém-se um mensurável contador de histórias.

Há um bom tempo eu não assistia Paulinho da Viola em seu habitat mais confortável, que é o palco da música. Desde o festival Heineken Concerts eu não ouvia tanto samba sabiamente compostos por ele e amigos e delicadamente concertados por uma esfuziante orquestra do samba. O show varia entre chorinhos, sambas de roda e os embalos de sua famosa viola, elegantemente empunhada em seus braços que a tocam em todo o espetáculo.

O Sesc sempre apresenta valiosos espetáculos em seus palcos, e desta vez permitiu-nos anotar aos ouvidos um samba de um elegante vascaíno, que faz música aos prantos do samba triste à alegria das batucadas. Devido à grande procura por ingressos, o Sesc Pinheiros abriu sessões extras, com apresentações de Paulinho entre os dias 17 à 19 de fevereiro, com um valor super acessível, mais ainda para credenciados na rede do Sesc. Foto: Divulgação

Cauby Peixoto, personagem da famosa Ipiranga com São João


O eterno professor está de volta ao intimista e boêmio palco do Bar Brahma, que encontra as mais famosas avenidas de São Paulo, reverenciadas por Caetano Veloso, em Sampa. O casamento de Cauby Peixoto com o Bar Brahma já vem de longas datas, o intérprete da voz mais aveludada da música brasileira passeia por sucessos eternizados em seu timbre marcante e toca com nostalgia o seu público.

Em meio a “Conceição”, “New York, New York” e “Hey Jude”, Cauby recorre aos escritos em sua frente para não errar nenhuma palavra de canções, em que ousa remontar sob sua voz, e ele sabe como fazer isso. A idade já não lhe permite prolongar tanto as músicas, nem explorar demais as partituras, porém lhe faz retratar o sentimento mais belo, símbolo da história da música brasileira, o amor que Cauby Peixoto tem pelo que faz.

Cauby é o ícone máximo de musicalidade, ele era chamado de Elvis Presley brasileiro, ele foi um dos ídolos de Roberto Carlos, antes de ser o grande sucesso que é, ele foi e ainda é o galã de suas fãs, que ainda o ovacionam e emitem palavras de carinho e saudades daquela juventude, onde fazer rock era uma arte. Nesta última segunda-feira, a atriz Marlene Silva abrilhantou o Salão Nobre do Bar Brahma com sua presença, e foi galanteada por Cauby com a composição de Tom e Vinícius, “Se Todos Fossem Iguais a Você”.

A banda acompanha o Professor com um compasso dirigido por sua intensa voz, Cauby brinca no show, permite ao maestro cantar “Madalena”, de Ivan Lins, e do mesmo compositor marca seu timbre em “Lembra de Mim”. Cauby causa-me emoção sempre que o ouço, seu olhar é um caso de amor com a interpretação das canções, eu calo-me e deixo de lado qualquer coisa para notar sua técnica vocal, seu perspicaz acompanhamento com as notas e seus suntuosos cortes de paletós.

É uma pena ter que deixar brevemente de lado meus sinceros elogios à Cauby, para dialogar sobre a péssima postura que parte do público tem em diversos shows. Eu não entendo porque as pessoas pagam para assistir uma mostra musical e sentam para conversar, enquanto o cantor exerce com sensibilidade o seu ofício. Será que ainda estamos na época das boates dos centros das cidades, onde futuros grandes nomes da música cantavam para o barulho dos “espectadores”? Show é para se apreciar, para perceber a notável interpretação do artista, para ouvir num todo tudo aquilo que vem do palco. Se for para conversar é mais interessante e respeitoso nem sair de casa. Eu tive vergonha pelos falastrões que estavam presentes no espetáculo, pois é preciso ter um pouquinho só de senso capaz de fazer qualquer público calar-se diante de uma canção, delicadamente entoada por um intérprete do quilate de Cauby Peixoto. Em shows, falem bem mais baixo, não falem nada. Aplaudam, é isso que um artista merece.

O Bar Brahma possuí uma das melhores recepções de espetáculos em São Paulo, sua arquitetura preservada consolida diversos ambientes com atrações simultâneas e de perceptível qualidade. A esquina mais famosa da capital paulista recebe novamente, aos brindes de um delicioso chopp e ótimos petiscos, o homem da voz de ouro, o personagem de discos e CDs com um dos mais lindos repertórios da história, Cauby Peixoto.

Nesta segunda-feira, Cauby me fez recordar de um outro show em que cantava canções de Roberto Carlos, dias após o seu lançamento do memorável álbum “Cauby Canta Roberto”, e que recebi com a elegante assinatura do Professor estampada por seu autógrafo na capa. Nesta ocasião, assim como hoje, Cauby interpretou a canção “Desabafo”, que em sua passagem no Bar Brahma tive a oportunidade de cantar versos dessa sublime composição ao lado dele, e foi este episódio que inspirou-me a embarcar num projeto que será dedicado por mim ao Cauby, e que brevemente será divulgado. Quem vê e ouve o Professor, jamais permitirá que os ouvidos esqueçam de sua voz.

Cauby Peixoto está no Bar Brahma, em São Paulo, todas as segundas-feiras, às 22h30. O couvert artístico custa R$ 78,0 e é recomendável que seja feita a reserva. O artista Luiz Maurício fica por conta de entreter o público com seu famoso boneco e sua caracterização impecável dublando e fazendo o cover de Cauby, antes do astro subir ao palco. Fotos: Ricardo Sorrentino

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

“A Dama e o Vagabundo”, um musical bom pra cachorro


Um musical nem sempre deve ser uma mega produção, com um elenco extenso e repetidamente com as mesmas vozes. As vezes, quando assisto aos musicais que desembarcam por aqui, sinto-me sentado à mesa daquela família de todos os domingos, que contam as mesmas histórias e as piadas de sempre. Incomoda-me o elenco de sempre. “A Dama e o Vagabundo” escapa dessa mesa, avança no conceito da simplicidade e caminha para um roteiro compreensível para pais e filhos. O espetáculo, dirigido por Tiago Pessoa, tira dos livros infantis uma história romântica e divertida entre um cão vira-lata e uma cadela de raça.

O espetáculo segue o modo brando de equilibrar as maldades e as bondades no roteiro. Lembro-me certa vez de ter visto uma peça criada para crianças contendo um roteiro completamente mal dirigido, com um clima pesado para o vilão, psicologicamente inviável para classificação livre. Mas isso acontece em alguns roteiros infantis, tudo depende da canalhice comercial de cada produção e direção. “A Dama e o Vagabundo” prende e diverte não só as crianças, mas cria um elo com os familiares que os acompanham. Um roteiro de classificação livre deve ser assim, afinal, ele precisa compreender à todo o público.

Higor Fernandes vive o cão Vagabundo, que em seu nome já revela a vida mundana que leva, agraciado pelos regalos dos fins de jantares em restaurantes, mas sempre fugindo da carrocinha. Lili, a delicada cadela vivida por Laís Lenci, deixa sua casa, onde era cuidada por uma família, que enquanto viajava deixou o filho e a cocker aos cuidados da temida tia Gioconda, interpretada por Delidia Duarte. O musical desenrola uma história romântica entre os dois cães, entrelaçando confusões e graça.

A importância dos espetáculos infantis em cartaz nos teatros é evidentemente explicada pela presença do público, que é assíduo, além disso, a produção de peças dessa natureza inserem a infância à cultura e trazem a experiência de, em muitos casos, ser esta a primeira peça de teatro daquela criança, ou mesmo dos pais, que por preços mais acessíveis podem também inserirem-se nesta experiência. Para um diretor este deve ser o maior mérito, e Tiago Pessoa deixa isso bem claro, enquanto monta este espetáculo com total carinho, que pode ser percebido a cada cena que prende o público, que os faz sorrir, cantar, baterem palmas e dançar. Vê-se pelas cadeiras fundas do teatro (item que precisa ser adaptado no Teatro Ressurreição*) as cabecinhas pensantes espichando-se para acompanharem cena a cena, enquanto comentam as surpresas com os pais. Isso é teatro, isso é direção, isso é cena, isso é público.

O roteiro é adaptado por Maria Fernanda Gurgel, e apresenta canções contagiantes sobre notas de músicas famosas. Laís Lenci, que vive Lili, adocica o espetáculo com sua voz e atinge bem ao público com uma atuação “didática”, feito uma contadora de histórias infantis, daquelas que a gente só conhece e gosta quando é criança. Higor Fernandes, que interpreta Vagabundo, além de destacar-se pelo seu atípico “H” no nome, desperta a dinâmica canina do musical, flexível e inteiro ao texto, ele doa-se com total carisma artístico ao personagem e faz a química pueril no romance. Delidia Duarte apresenta erros técnicos de cena em sua primeira entrada, falta mais naturalidade, sei que falar isso é um tanto clichê, mas há clichês que não podemos fugir, já que os atores também não o desprendem de si. Porém durante o espetáculo ela cai no humor, e vai revelando-se grande no palco e mais solta. Aos atores que completam o elenco, Alexandra Paixão, Felipe Ludovico, Marcela Arribet, Márcio Diniz, Mariana Merenda e Ruy Brissac, ficam os aplausos, porém espero os aplaudir ainda mais, quando também desprenderem-se mais do texto e levarem melhor a naturalidade ao personagem. O palco é uma outra vida, e precisa ser vivida com a mesma espontaneidade da vida real.

A iluminação, de Paulo Tardivo e Robson Vellado, é, em grande parte, muito bem desenhada, contornado o clima alegre, ou mais tenso das cenas, porém, em alguns momentos, ela mancha o cenário projetado por imagens ao fundo, apagando a profundidade do palco. O cenário é como tirado de um livro de contos, logo, adequado em suas cores, mas eu mudaria um pouco o tamanho disso, deixaria os adereços do palco maiores, já que os cães não podem ser do mesmo tamanho que um banco da braça, ou que um poste de luz, isso torna a trama um tanto irreal demais. Tony Filho, que assina a cenografia, também é responsável pelo lindo figurino, que é bem visual, criativo e característico.

O espetáculo “A Dama e o Vagabundo” é uma recomendação minha, tanto para as férias, quanto para todo o período em que estiverem em cartaz, que deve ser até Abril, no Teatro Ressurreição, em São Paulo, sempre aos domingos, às 16h. O valor do ingresso é de R$ 30,0, inteira. A Pessoa Produções é a responsável pelo espetáculo, que sempre recebe seu público com total carinho, e aos quais estimo o contínuo sucesso que noto seguirem.

*Obs.: Ao Teatro Ressurreição recomendo que adquiram aqueles adaptadores de assentos, para que as crianças possam ficar mais altas quando acomodadas às poltronas. Isso é um descuido de alguns teatros. As poltronas tornam-se fundas para as crianças, que acabam colocadas no colo dos pais e acompanhantes.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

“Hécuba”, em cartaz no Teatro Vivo


Mais um espetáculo de Gabriel Villela está em cartaz no Teatro Vivo, em São Paulo. Sem perder sua digital sensível ao visual cenográfico do espetáculo, o diretor parece copiar seus próprios aspectos em tudo que monta. Seus guarda-chuvas continuam a compor as cenas, mesmo que desnecessários. Walderez de Barros é a Hécuba, de Eurípides, num texto firme, triste, sóbrio e apreensivo.

Mesmo com tantas cores no palco, o texto de Eurípides desabrocha uma tragédia grega, um confronto troiano. Hécuba, a rainha de Troia, alimenta-se do rancor pela morte de seus dois filhos, Polixena e Polidoro. Com a ajuda das troianas, Hécuba vinga-se do Quersoneso Trácio, que encomendou o corpo de suas proles. O texto tenta passar alguma mensagem, mas sua adaptação torna isso quase que insuficiente, o confronto liderado pelas histórias dos reinos, contadas no roteiro, recobrem qualquer mensagem, que não seja a da vingança. Com o texto que lhe foi entregue, Walderez interpreta como um furacão a rainha Hécuba, ela desenha uma cena intensa, um olhar voraz e surpreende com um timbre incrível. No elenco também estão Fernando Neves, Flávio Tolezani, Nábia Vilela, Luiz Araújo, Luisa Renaux, Leonardo Diniz, Marcelo Boffat e Rogério Romera, escondidos por detrás de máscaras e da atuação de Walderez.

A iluminação de Miló Martins é um traço forte que compõe o espetáculo, estando muito bem desenhada. O figurino é um grande baile de cores, de tecidos bem cortados, mas perde-se do contexto do texto e de uma atração para a nacionalidade brasileira. Um rainha, sem traços de rainha, com a dureza selvagem, mas que é característica do texto, porém um cajado cravado de pequenos búzios, em plena Troia? A dor da rainha troiana é um reflexo muito similar aos fatos atuais, mas o espetáculo tem um corte muito brusco para ser realizado em sessenta minutos. Ou o espetáculo é sóbrio, ou ele é colorido, transitar pelos dois numa tragédia é como pintar de roxo o cavalo de Napoleão. No texto de Eurípides, Hécuba é uma mulher sã e rica, na adaptação de Vilela, não há essa passagem. Ela já assume o palco com a face entristecida. O texto teatral tem que resumir-se e contar sua história, e não fazer o público buscá-la em complementos após sair do espetáculo, isso é lição de casa.

O cenário assinado por Márcio Vinícius é um belo acerto, ele consegue valorizar a cena e acompanhar o brilho da luz. Os adereços revivem bem as arenas dionisíacas, quando falamos de máscaras, mas o closet de Villela cai novamente sobre outro espetáculo seu, e coloca nas mãos de atores guarda-chuvas que não se encaixam em nenhum sentido, nem mesmo cênico. Ainda não consegui entender o porquê de tantos guarda-chuvas em seus espetáculos. As músicas entoadas pelos atores são um retrato épico, mas caem novamente em sua mesma característica de carimbar sempre a mesma digital em diversos espetáculos. Uma direção precisa ser mutável, na medida em que o espetáculo muda de roteiro, ou então, é melhor manter o mesmo texto por anos em cartaz.

O Teatro Vivo, mais uma vez, recebe uma encenação clássica, e desta forma segue sua linha curatorial, descartando qualquer forma mais burlesca e alternativa de roteiro e mantém-se num cordel contínuo de espetáculos, evidenciando um elitismo cultural, mesmo com oportunidades apresentadas pelo programa de cultura da empresa de telefonia móvel, o Vivo Encena, é preciso abrir os camarins para uma transformação daquele palco. O teatro precisa ser mutável, mantendo-se em sua essência de transmitir cultura, humor e entretenimento. Essa não é uma característica exclusiva do Teatro Vivo, este é um conceito que tomou conta das curadorias teatrais. Os palcos são entradas para toda a manifestação cultural, desejável a grande parte da sociedade, não apenas as seletivas clássicas, ou ao humor que se faz na televisão e transfigura-se em stand up nos palcos, como tem feito o Teatro Frei Caneca. O Vivo é o teatro mais bem preparado do Brasil, com o devido acesso para deficientes auditivos, visuais e motores. Colaboradores voluntários da Vivo dão aos espectadores com deficiência visual informações referentes a todo o meio cênico do espetáculo, assim como interpretações em libras e legendas, para deficientes auditivos.

“Hécuba” estará em cartaz durante todo o mês de janeiro do próximo ano no Teatro Vivo, em São Paulo. Os ingressos podem ser comprados na bilheteria do teatro, ou pelo Ingresso Rápido, na internet. Sextas às 21h30 e domingo às 20h, ao valor de R$ 40,0, e aos sábados às 21h, sob o valor de R$ 60,0.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Fernanda Montenegro vive cartas de Simone de Beauvoir em “Viver Sem Tempos Mortos”


Um doce, ácido, cálido e voraz encontro com Simone de Beauvoir está na voz e no olhar de Fernanda Montenegro, em cartaz no Teatro Raul Cortez, em São Paulo. Dirigida pelo ímpar Felipe Hirsch, Fernanda volta aos palcos interpretando uma gama muito bem selecionada de cartas de Simone para Jean-Paul Sartre.

O texto é sustentado por cartas e a autobiografia de Simone de Beauvoir, pesquisa e compilação realizada por Newton Goldman, que leva ao palco uma tradução resumida de uma das pensadoras mais influentes do século XX. Juntar grande parte da obra de Simone já é algo muito complexo, por exemplo, a escritora compôs seis volumes de autobiografias, além de infinitas cartas, algumas destas remontam a intensa vida dela, desta vez vivida pela dama do teatro, Fernanda Montenegro.

Fernanda faz teatro com um brilho especial nos olhos, é possível visualizar a personagem através de seu olhar, que penetra a cada um na plateia e remonta o roteiro com sua marcante voz. Eu só compararia a voz de Fernanda com um daqueles bons perfumes franceses, que marcam o cheiro por vários dias em um tecido. Ela doma um dos mais belos timbres que refinam um texto e que toma vorazmente conta do teatro para explanar cartas que falam de amor, de sexo, que revelam a audácia de Simone e a energia que a caracterizava um trator do pensamento.

As correspondências trocadas entre Simone e Sartre, seu grande amor, era o maior treinamento de sentimentos e ideais que a pensadora praticava. A direção de Felipe Hirsch é um pergaminho que vai se desenrolando com cautela no palco, e fazendo de uma arena sóbria o calor de cada carta interpretada pela atriz. Sua interpretação é uma memória póstuma, uma pitada brutal de concentração, um saboroso roteiro gozado por palavras lindas e parafraseadas pelo comportamento de Fernanda, que permanece o espetáculo inteiro sobre uma cadeira ao centro do palco, enquanto é banhada por um feixe de luz, desenhado por Beto Bruel, enquanto a impecável produção fica por conta de Carmem Mello e realização da Trigonos Produções Culturais.

A voz aveludada de Fernanda Montenegro vai interrompendo o silêncio à medida que casa-se com ele, e assim a história de Simone torna-se teatral. Ainda assim, senti falta de algumas das frases de Simone feitas no Brasil, enquanto a pensadora hospedava-se no Recife, sofrendo com o calor, e amando Nelson Algren, um escritor norte-americano pelo qual apaixonou-se após romper com Sartre. Aqui no Brasil, Simone e Sartre vieram para participar de um Congresso de Crítica e Literatura, o grupo, que ainda contava com Camus, era chamado de existencialista, pela maneira particular e contraditória a muitos costumes da época. Alberto Ribeiro e João de Barro retrataram este estilo de vida e reflexo ao que vemos de fora com a marchinha “Chiquita Bacana”, que foi um sucesso, menos aos ouvidos de Simone. Enquanto o Congresso acontecia, o Brasil suava com a derrota do Santos, de Pelé, para o Ferroviário, de 4x0.

Daniela Thomas é responsável pela direção de arte do espetáculo “Viver Sem Tempos Mortos”, que volta com mais valorização da atriz sobre o palco, com uma interpretação típica de sua experiência teatral. Fernanda veste-se sóbria, mantém o público voltado a cada palavra bem contada do texto, e reconta essa impecável história deixando exposto o eterno amor de Simone para Sartre e sua aventura em vida. O mais espetacular é que Fernanda não se descreve Simone de Beauvoir, ela é a atriz que interpreta a intensidade.

O espetáculo esta em curta temporada no Teatro Raul Cortez, na Fecomércio, em São Paulo, até o dia 11 de dezembro, com apresentações extras nos dias 1 e 8/12, 21h30, ao valor de R$ 80,0. Sextas às 21h30, domingo 18h, com os ingressos por R$ 80,0. E aos sábados às 21h00, e os ingressos por R$ 100,0.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

“Minhas Sinceras Desculpas”, com Eduardo Sterblitch


Essa é minha primeira crítica dirigida parcialmente ao público, assim como foi um dos únicos espetáculos que já assisti onde a crítica está para o público. Eduardo Sterblitch não é o César Polvilho da TV, personagem que apresenta o programa Pânico, na Rede TV. No palco, o ator tenta contar sua história através de uma tragicomédia, que é ligeiramente traduzida para humor pelo próprio público catequizado pela televisão e que esperava um encontro com os personagens do ator.

“Minhas Sinceras Desculpas”, que teve sua última apresentação no Citibank Hall, em São Paulo, não é um monólogo, tampouco foi um espetáculo que me arrancou risos, Eduardo é um ator de teatro, que ganha a vida fazendo humor na televisão. Sua experiência teatral, com o espetáculo, parece um despejo frustrado de sua trajetória cênica, o ator rebusca sua própria história e a expõe ás vistas do público de uma forma direta, utilizando exemplos da burguesia moderna e do comodismo humano, onde o público aprendeu a saciar-se apenas com a cultura televisiva.

Eduardo é um dos atores mais versáteis que conheço, e sem dúvidas uma das melhores revelações que surgiram nos últimos anos. Suas expressões, e as vezes a falta delas, contornam sua maneira pitoresca de fazer humor. Eram os personagens que o público esperava no palco, e ao público ele os deu. Ao início da peça somos surpreendidos com Paulo Autran, em áudio, recitando “José”, de Drummond. Eduardo também interpretou rapidamente uma gama de imitações levando a plateia ao riso, porém em seguida metralhou a todos com a verdade de seu texto. “Minhas Sinceras Desculpas”, segundo o roteiro, é um pedido de desculpas pelo comportamento escroto da sociedade atual, de suas mazelas e expectativas frágeis.

Sterblitch não preocupa-se em fazer o público rir, segundo sua recomendação no início do espetáculo, porém faz piadas no decorrer do texto retratando sua frustração para com as expectativas do público, e assassina um texto que poderia ser teatral, e mesmo assim é aclamado pelo público, que ora o odeia em cena, ora o adora. O texto, talvez não tenha estrutura, porque tem o propósito de tentar estruturar-se em alguma apresentação, onde o público não seja leviano à televisão, ou ao humor barato, mas ele desestrutura a plateia.

O ator coloca uma lupa sobre o público, porém de uma forma um pouco grosseira, sem importar-se com limites, abusa de sua liberdade humorística para explicar quem é o público do teatro, e porque eles esperavam um ator de televisão, ao invés do homem que cresceu no teatro. Em diversos momentos o público gargalhava sei lá do que, pois não havia motivo, nem para humor, nem para aplausos. Eduardo Sterblitch é um ator, porém ele mesmo precisa optar por desvincular sua imagem de seus personagens. Quando um ator não consegue passar a mensagem de um personagem sem retratar o personagem anterior, sua missão com o texto falhou.

O ator frustrado que subiu ao palco para revelar o que a plateia fazia no lugar de público, não me fez rir, assim como me trouxe momentos de reflexão. Não há como recomendar, ou não recomendar o espetáculo, até porque não se sabe se ele continuará as apresentações. O fato é que esta é uma peça inédita, com um “texto” que se constrói e se destrói em cena. Nem mesmo a resenha da revista Veja conseguiu definir o espetáculo, aliás, as resenhas da revista Veja nunca conseguem definir nada, talvez isso seja fruto de sua superficialidade jornalística. O texto do espetáculo utiliza quase todos os recursos do humor, menos a inteligência, pois ainda há uma lacuna desnecessária no roteiro, uma falta de sentido que fica perdida pelo caminho. A peça só atraiu o público pela fama televisiva do ator, esta que ele gostaria de apagar enquanto estivesse sob as ribaltas do teatro. Há uma beleza cênica, de figurino, de movimento, mas estão perdidas num texto que navega sobre uma interrogação. O ator fala muita coisa, e não interpreta nada. O espetáculo resume-se num número de stand up, com recursos e produção, para ser um monólogo é necessário um texto de monólogo. Mas, ao mesmo tempo, Sterblitch revela-se um clown do contemporâneo, um código da sociedade do espetáculo. E ser um clown é uma grande arte.

O cenário de Márcia Moon foi desenhado com preocupação ao clima do texto, e construído com perfeição. Durante o espetáculo uma banda estilo Jazz acompanha o ator, o interrompendo para apresentações musicais, esboçando um show a parte, com a direção musical de Marcinho Eiras, que traz ao palco três guitarras que são tocadas simultaneamente por ele. Os músicos trazem a elegância da música americana, a força da voz negra paralela as perfeitas cifras solfejadas e dedilhadas nos instrumentos. A iluminação de Osvaldo Vieira “Pelé” é uma saborosa fatia do espetáculo, que foi realizado pela EBPZ Empreendimentos Culturais.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Roberto Carlos lota shows em São Paulo


Não é novidade para ninguém que Roberto Carlos mais uma vez deslocou inúmeros fãs para a plateia de seu show, que desta vez aconteceu no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo. Sempre com preços salgados, os ingressos esgotaram em poucos dias, havendo a necessidade de abrirem novas datas de apresentações, que só deram mais fôlego ao artista, que embalou sucessos de sua majestosa carreira.

O show, que deselegantemente começou com meia hora de atraso (no último sábado), iniciou-se com a orquestra entoando “Como é Grande o Meu Amor Por Você”, composição de Roberto feita em 1967, quando preparava um novo LP. Naquele instante o público era o coral, que anunciava o Rei com composições muito conhecidas, mas incansavelmente cantadas. A iluminação do show foi estrategicamente içada em barras e realizou um espetáculo a parte.

O roteiro do show ficou por conta de canções antigas que reuniu as mais saudosas vozes a cantarem, mas o clima romântico, típico das recentes apresentações de Roberto, foi substituído pelo embalo do rock’n roll, com canções do tipo “Quando”, uma das minhas preferidas de todos os álbuns do cantor.

Roberto Carlos nunca se anunciou como sendo Rei, porém creio que hoje lhe agrada esse título, como forma de carinho dos fãs e recíproca dos críticos. A verdade é que o palco é sem dúvidas o império de Roberto, e o público o coroa acertando todas as letras de suas canções. As rosas encerraram o espetáculo sendo lançadas para os fãs, todas com um beijo do Rei.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Chiquinha Gonzaga renasce nos dedos de jovens pianistas


Não teria sido possível realizar um encontro entre Chiquinha Gonzaga e os jovens pianistas Alexandre Dias e Wandrei Braga, pois antes mesmo que os dois poetas das teclas tivessem vindo ao mundo, a primeira mulher a compor uma canção no Brasil deixara os saraus da vida, para os do céu. Foi aos onze anos de idade, que Chiquinha começou a compor, e agora, em 2011, os pianistas Alexandre e Wandrei reuniram, junto ao Instituto Moreira Salles, um acervo digital da compositora, e o lançaram nas cidades do Rio de Janeiro, Brasília e encerraram em São Paulo.

Francisca Edwiges Neves Gonzaga, conhecida como Chiquinha Gonzaga, nasceu no ano de 1847, filha do general do Exército Imperial Brasileiro com uma humilde negra, que passou-lhe nos genes o gosto pelos ritmos populares, entoados em rodas pelos escravos. Chiquinha frequentava os encontros destes povos e buscava inspirações para suas futuras obras. A primeira mulher a se expor tocando um instrumento e compondo canções separou-se do primeiro marido e foi impedida de criar os filhos menores, ela passou a tocar em troca do sustento do filho mais velho, o que pôde criar.

Chiquinha introduziu as mais influentes partituras no teatro brasileiro e fundou a Sociedade Brasileira dos Autores Teatrais, ao todo ela compôs 77 músicas para peças. O pianista Alexandre Dias, em sua apresentação em São Paulo deixou a força de Chiquinha Gonzaga tomar-lhe no palco e interpretou uma dessas peças, tocando a introdução do primeiro ato de “Fantasia”, o que lhe rendeu ovação e muitos aplausos. Aquela interpretação foi além do que se pode emocionar, o pianista compactuou com a compositora o mesmo talento em frente a um piano, e demonstrou a afinidade com as teclas e a paixão que sente por elas.

Chiquinha Gonzaga adentrou com suas composições no Palácio do Catete, sede do Governo brasileiro no Rio de Janeiro. Ela era amiga da primeira-dama Nair de Tefé, que casou-se com o presidente Hermes da Fonseca. Chiquinha foi duramente criticada por tocar um maxixe nas dependências do Palácio, e mesmo assim tornou esplêndido diversos ritmos que fizeram sucesso em seus dedos pelas teclas, as polcas, valsas, tangos, fados, lundus, quadrilhas e serenatas, além do choro, que marcou sua carreira a intitulando como primeira chorona brasileira. As canções “Linda Morena” e “Carijó” foram relembradas por Alexandre Dias, com total maestria.

O pianista Wandrei Braga calou-me de emoção e deixou meus ouvidos chegarem ao piano que posto sobre o palco vazava aquela famosa composição de Chiquinha, “Lua Branca”, também trouxe ao teatro as canções divinas “Agnus Dei”, “Ave Maria” e “Prece a Nossa Senhora das Dores” em adaptações para piano solo. Os olhos de Chiquinha Gonzaga passeavam pelo palco celebrando-se no cenário ao fundo, que mostrava-nos silhuetas de partituras, frases e fotos da compositora. A polca “Atraente”, grande sucesso, contagiava-me com a vontade de sair bailando pelo teatro. O sorriso tímido de Chiquinha era quase igual a timidez de Wandrei, que cada vez que olhava para o público buscava o fôlego vivaz para mais uma canção que beijava o lindo piano.

Ninguém jamais me fará tirar da cabeça que o piano é o mais lindo entre os instrumentos, ele é a regência de vorazes orquestras e o coração destes dois pianistas, Alexandre Dias e Wandrei Braga, que deram mais uma vez os merecidos aplausos e méritos a Chiquinha Gonzaga. Ontem (17) o suntuoso Teatro Humboldt estava vazio, mas ganhou as poltronas com cada nota que corria as fileiras. É uma pena que a cultura ainda atinja poucos, e a informação sobre estes eventos não seja valorizada. Os ingressos não custavam mais do que 10 reais, além disso um quilo de alimento substituía o valor.

O acervo digital, reunido pelos pianistas e o Instituto Moreira Salles, está livre para acesso e nele encontram-se as obras inteiras da compositora que estreou a música popular brasileira, no site www.chiquinhagonzaga.com.br. O projeto é incentivado pelo Ministério da Cultura e patrocinado pela Natura. Espero sempre os encontrar por todo canto, espelhando a musicalidade popular de Chiquinha Gonzaga e sua genial maestria de fazer música, regendo-se pelos galãs dedos de Alexandre e Wandrei. Assim como ela entrou pra história, os dois continuam tecendo-a e fazendo-a.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Elisa Lucinda e Chiquinha Gonzaga, por Nyldo Moreira

Poema: Elisa Lucinda
Música: Chiquinha Gonzaga
Interpretação: Nyldo Moreira