domingo, 28 de agosto de 2011

Wanderléa e “A Terceira Força”, em São Paulo


A eterna Ternurinha está de volta aos palcos paulistanos com um vasto e nostálgico repertório. Ontem (27), Wanderléa apresentou o show “A Terceira Força”, com produção de Thiago Marques Luiz, no intimista Teatro Fecap.

Wanderléa subiu ao palco desenhado pela filha Yasmin Flores, já aquecendo a voz para animar o público que não hesitou em chamá-la de “rainha”. Com muita disposição, a cantora mandou a ver num repertório intenso, e deixou nas cordas afinadas do baixo e da guitarra aquele rock que extremecia o lado B e também os sucessos que se eternizaram em sua voz.

A musa do iê-iê-iê relembrou coisas que tocavam pelas agulhas das vitrolas, “Quero ser uma locomotiva”, de Jorge Mautner, vislumbrou o ritmo das discotecas de Ternurinha, além de “Back in Bahia”, de Gilberto Gil, “Menino Bonito”, de Rita Lee, “Quando”, de Roberto e Erasmo, “Feito Gente”, de Walter Franco e “Não vou ficar”, de Tim Maia. Banhada pelo belo desenho de luz, Wanderléa não deixou de lado seu famoso bailado e os eternos moviventos de mãos, que levantou o público ao coreografar e cantar a imortalizada “Pare o Casamento”, de Resnik e Vitor Yong, versão Luis Keller, com direto à buquê de noiva para a plateia.

Notas remasterizadas ao vivo no palco, brilhante afinação e sintonia com a banda, assim “A Terceira Força” é um laboratório da cantora para um novo álbum que está por vir. Enquanto o público relembrava os sucessos e ouvia alguns que pouco foram cantados durante a carreira da artista, Wanderléa soltou a voz num pout-porri de grandes hits, passeando pelo melhor do rock brasileiro “Prova de Fogo”, “Banho de Lua” e “Exército do Surf”. Para dar o toque romantico à turnê, Léo Califórnia, produtor e marido da cantora, incluiu no repertório belas notas em “Esqueça”, de Roberto Carlos, “Te Amo”, “Horóscopo”, “É o tempo do amor”, “Foi Assim”, “Boa noite, meu bem” e o bis final, “Você vai ser meu escândalo”, que fechou o show com aplausos de quem queria mais.

Wanderleá ainda apresenta hoje (28) o show “A Terceira Força”, em São Paulo, no Teatro Fecap, ao ótimo preço de R$ 60,0, para quem é fã do verdadeiro rock brasileiro. Foi muito bom relembrar tudo que não se faz mais hoje, com a mesma qualidade e o mesmo timbre, que a cantora não deixa de lado, com o mesmo ritmo animado de anos atrás. Foto: Divulgação; Thiago Marques Luiz; respectivamente.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Dia do Ator


Ser ator é viver um pouco de cada coisa, de cada sorriso e de cada lágrima que a gente derrama sobre um palco cheio de luz, ou até no escuro do teatro, quando a cena pede silêncio e solidão. Aos que escolheram o ofício é porque de fato amam o que fazem, e é o amor que move a cena, que descortina um espetáculo e que nos acompanha no sucesso.

Um grande artista tem que viver o sabor de todos os palcos, de todas as histórias, tem que saber viver o amor do outro, brilhar com o outro e como bem disse Fauzi Arap: “Quanto menos preconceituoso, maior o artista”.

Viver uma grande comédia é saber lidar com o humor, é descartar as dores do mundo para fazer graça no palco. Mas um ator não exerce o ofício somente no palco, veste algo e encanta numa praça, na arena ou entre amigos, este que solfeja a cena é o grande ator.

Viver um bom drama é trazer para os olhos o sofrimento, a perda, a emoção e os sentimentos mais calados que berram por lágrimas. Ser teatral é respeitar o texto, a direção e os valores que arte impôs até aqui.

Hoje é o dia de todos os atores, inclusive daqueles que seguem com uma trupe celeste, é dia de lembrar o olhar de Maria Della Costa, da serenidade cômica de Paulo Autran, das gargalhadas contagiantes de Nair Bello, dos jargões de Ítalo Rossi, da sabedoria de Zé Renato Pécora e Raul Cortez, e tanta gente que faz um grande e saudoso elenco.

Não é dia do ator preguiçoso, sem vontade, do que não é cena nem canto, é dia de viver a arte fantástica de Denise Fraga, dos consistentes textos de Juca de Oliveira, do humor viril de Eduardo Martini, das direções robustas de Jô Soares, da experiência de Bibi Ferreira, da vida de Fernanda Montenegro, das calorosas comédias de Gerson Steves, Vivi Alfano, Otávio Martins, Rachel Ripani e Rosi Campos. Hoje é dia do ator de fato, do que encanta no cinema, no teatro e na televisão, de todos aqueles que aprenderam, não na escola de teatro, mas na vida artística, o respeito pela cena.

Parabéns aos atores e àqueles que com tanta disciplina nos produzem e dirigem, ao Manoel Carlos, ao Roberto Lage, a Glória Perez, Célia Forte e Selma Morente, os bravos Charles Moeller e Claudio Botelho, ao Nilton Travesso, Carlos Alberto de Nóbrega, Tônia Carreiro, Daniel Filho, Marcos Caruso, Marco Nanini, Francisco Cuoco, Glória Pires, Beatriz Segall, Fúlvio Stefanini, Miguel Falabella, Glória Menezes e Tarcísio Meira, Regina Duarte, e a vasta lista do que há de melhor na arte cênica brasileira.

sábado, 13 de agosto de 2011

Fafá de Belém e Wagner Tisos, em piano e voz


O encontro, que demorou para acontecer, está em cartaz no palco do Teatro Fecap, em São Paulo: Fafá de Belém e Wagner Tisos. O maestro já curava os intensos repertórios de Fafá, que com sua boca modesta sopra as canções mais marcantes da música popular brasileira.

Na playlist do encontro não ficaram de fora eternizados sucessos de Wagner, como “Coração de Estudante” e “Sete Tempos”, que passaram pela voz da cantora entre os memoráveis títulos de Villa-Lobos, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Waldir Azevedo, Dorival Caymmi e Gilberto Gil. Fafá não poupou voz para nos relembrar a sensualidade de “Sob Medida”, composição de Chico Buarque, que passeou um lindo som pelo teatro, arranjado no piano do companheiro músico e no violoncelo de Márcio Malard.

O Teatro Fecap ficou pequeno para tanta voz, Fafá é uma cantora de orquestra, de grandes bandas, e arrisca a nova temporada acompanhada da participação especial de sua filha Mariana Belém, que ainda escorrega em algumas notas, e não demosntra traquejo com o palco. Raul Mascarenhas, convidado para as apresentações, não compareceu por problemas de saúde, segundo a cantora.

Wagner Tisos e Márcio Malard deram um show à parte antes da entrada de Fafá de Belém, por seus dedos e ao som do violoncelo passaram lembranças de Tom e Milton Nascimento, além do delicioso sucesso “Brasileirinho”.

O espetáculo foi curto para mostrar a potência de Fafá, que trouxe pouco público e boa acústica, apesar do timbre de sua voz não acompanhar perfeitamente o som dos instrumentos. A iluminação coloriu belamente o palco, que trouxe ainda “Foi Assim”, de Paulo André Barata e Ruy Barata, em uma fantástica e instimista interpretação. A cantora vestia o mesmo verde que apresentou-se no Teatro Municipal, em “Elas Cantam Roberto”, enquanto a filha trazia as mesmas cores no figurino que vestiu em sua apresentação no Ibirapuera, em homenagem as mães.

É impossível não deixar-se ir ao som de Fafá, que ipnotiza qualquer um ao seu timbre marcante, à alegria contagiante, pois só ela canta e sorri divinamente com total harmonia e beleza. O show fica em cartaz ainda neste sábado (13) e domingo (14), no Teatro Fecap, em São Paulo, ao preço de R$ 60,0. Foto: Divulgação / Portal Terra, respectivamente.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

“A Tempestade”, de Shakespeare


A última peça de Willian Shakespeare, encenada pela primeira vez em 1611, na Inglaterra, está em cartaz no Teatro das Artes, em São Paulo, sob a disperça direção de Marcelo Lazzaratto, com beleza nos figurinos e dinâmica cenotécnica. “A Tempestade” é a obra impecável do autor, que salpica entre vingança e romance, um tempero cômico.

Um duque deposto, o par romantico, os três bêbados e lords conspiradores alimentam o robusto texto de Shakespeare, que passa-se numa ilha exclusa, habitada por Próspero e sua filha Miranda, exilados após serem destronados de Milão. O escravo Caliban, deformado e ousado, serve ao legítimo duque, porém encontra dois tripulantes da embarcação que trazia o rei de Nápoles, Alonso, e Antônio, que num golpe político usurpou o ducado de seu irmão. Uma tempestade, provocada por Ariel, um espírito capaz de transforma-se em ar, água e fogo, catraiou a corte naquela ilha, onde a história ganha seu desenrolar.

Carlos Palma interpreta o mágico e legítimo duque de Milão, Próspero, com fraca impostação vocal, confuso em suas palavras, que o esmaecem no texto. O ator que deveria ser o conto central da história, deixa perder o fio da meada pela ausência de naturalidade e voz. Karen Coelho vive Miranda, que antes era interpretada por Thaila Ayala. A atriz abre sobre o palco sua mala dramática e nos permite assistir o texto por meio de sua interpretação e fisionomia muito bem trabalhadas. O Príncipe Ferdinand é vivido por Sergio Abreu, do qual não tenho muito o que descrever, além de sua neutra participação, que poderia exbanjar o personagem em uma melhor direção e interpretação.

O figurino de cores e tons marcantes não perde-se nas cenas, ganha o foco dos olhares juntos à maquiagem de Patrick Guisso, rigorosamente delineada. A costura e o desenho das roupas é assinada por Beth Filipecki, Renaldo Machado e Ed Galvão. O cenário de André Cortez é movimentado pelos próprios atores, e ganha a transparência para evolução das cenas atravez das entradas praticáveis elaboradas para evolução dos personagens, sábio instrumento cenotécnico utilizado para elevar o espetáculo à atualidade. A iluminação respinga nas cenas um sintético toque tecnológico e refaz a fotografia desta antiga história, desenho de Davi de Brito e Vânia Jaconis.

O numeroso elenco dirigido por Marcelo Lazzaratto, não é tão bem marcado no palco, há muita gente conturbando algumas cenas e abafando o som que não chega com qualidade à plateia. A surpresa e o grande recheio deste bolo fica por conta de Paulo Goulart Filho, que interpreta Ariel com total desenvoltura circense, evoluindo no palco com arrancadas de pássaro, com a vazão fugaz de uma correnteza ou do ar. A delicadeza no olhar, mesclada à destreza que o personagem lhe cobra é perfeitamente interpretada por ele, enquanto sua voz avança num timbre impecável. O baile do coro, os movimentos dos bufões e a musicalidade de André Abujamra destacam-se muito melhor do que a composição de atores.

O som do fagote com o silêncio interrompido pelo duduk, são soprados por Vadim Klokov, que nos leva à Europa com total beleza sonora. Demian Pinto baila os dedos sobre o piano, com segurança e rigidez. Gilson Barbosa, Lieni de Oliveira Calixto e Ellen Hummel sopram o Oboé fazendo caminhar as notas muito bem arranjadas. Nicette Bruno deixa sua voz tomar conta do teatro, quando exibe sua imagem em três cenas divididas em projeções ao cenário, deixando a textura de sua pele dar o toque misterioso à cena.

A produção é bela obra de Regilson Feliciano, com direção geral de produção de Alexandre Brazil e Erike Busoni. A direção ainda grita ordem. O espetáculo é apresentado pela Eletrobras, com o patrocínio do Sonda, Telefônica e Lorenzetti. Copatrocínio da Porto Seguro e Viana Negócios Imobiliários. “A Tempestade”estará em cartaz no Teatro das Artes, em São Paulo, localizado no Shopping Eldorado, até o dia 28 de agosto. Sexta e sábado às 21h e domingo às 20h, e os ingressos custam R$ 50,0 comercializados via internet ou na bilheteria do teatro, pelo Ingresso.com. Foto: Divulgação.

sábado, 6 de agosto de 2011

“Na Boca do Leão” está o melhor da comédia


O texto de Billy Van Zandt e Jane Milmore extravasa a comédia sobre o leão da receita federal, com a consistente direção de Eduardo Martini o roteiro desenrola uma saborosa confusão que não deixa ninguém ficar de fora das gargalhadas.

No elenco está Bruno Albertini, que passa o tempo todo sobre o palco, ele interpreta Ricardo, que tenta burlar a receita federal declarando ser esposo de Darcy, interpretado por Eduardo Martini. Porém Darcy é seu amigo, e decorrente a ambiguidade que o nome propõe, Gerson Steves, que vive o fiscal do Imposto de Renda anúncia sua visita ao suposto casal e dá início a grande confusão, que traz às cenas Vivi Alfano, interpretando a espalhafatosa mãe de Ricardo, Luci Pereira, proprietária do apartamento e ligeiramente intrometida, Carina Sacchelli, namorada de Ricardo, Jésus Adriano e Sissi Zucato.

O texto é uma das grandes comédias do momento, sem dúvidas a sábia cartada de Eduardo Martini para os palcos. Não há o que apontar nos scripts, que acompanham a ótima e animada trilha sonora de Sergio Luis. Como se não bastasse o brilho da direção, Eduardo ainda assina a cenografia com elegantes móveis da Artefacto. Yara Leite esculpe o palco com um perfeito design de luz, que tempera as cenas pontualmente.

O ator Bruno Albertini, acostumado às direções de Eduardo, não desempenha a total naturalidade que seu difícil personagem pede. Por estar em grande parte do tempo no palco, sua desenvoltura requer uma leitura analítica e a atuação despreendida, pois lhe falta se divertir mais no palco, soltar-se da preocupação que ainda o insegura. Pelo menos foi assim na estreia. Vivi Alfano rasga a seda em determinadas cenas, diverte o público e arrebata aplausos com sua fabulosa atuação. Gerson Steves não me surpreendeu, após ganhar a plateia do Zorro, ele mais uma vez passa-se por um personagem desajeitado. Sua atuação é cômica como de costume, permite que ele divirta-se enquanto não deixa de mostrar-se um incrível ator. O timbre da voz e os movimentos no palco o destacam na peça.

Adriana Hitomi assina os belos figurinos do espetáculo, e também nos diverte com a costura que veste Eduardo Martini nas cenas. A auto maquiagem do ator enquadra-se ao pacote de humor promovido por sua atuação versátil, que reveza-se entre um homem e um homem disfarçado de mulher, para ajudar o amigo a não cair na malha fina. Luci Pereira desempenha bem o papel, não esforça-se muito para soltar a voz, o que lhe ajuda a ganhar as cenas. Carina Sacchelli é um rosto novo no teatro, que ainda deve preocupar o diretor, ela ainda é presa e lhe falta naturalidade, porém é uma boa aposta e deve encarar-se como um desafio próprio. Sissi Zucato brilha em sua curta participação, enquanto Jésus Adriano estreia bem em seu pequeno texto.

Estimo que as comédias mantenham-se preocupadas com o protesto e a realidade, juntamente ao divertimento que nos permite sorrir e felicitar o teatro brasileiro. “Na Boca do Leão” não abusa, nem exagera nos cacos, e sim exibe a cara do teatro de humor construído para o sabor do público e do próprio elenco. O projeto é patrocinado pela Ticket e Porto Seguro, sob a lei de Incentivo à Cultura, pois algo que realmente vale a pena o governo cultural tem realizado. A Produção executiva é de Marcos Meneghessi, ao lado da produção de Adriana Amorim e coordenação de Três Jóias Produção.

“Na Boca do Leão” estreou no dia 2 de agosto e exibe-se em curta temporada no Teatro Folha, em São Paulo, até o dia 18 do mesmo mês. Os ingressos custam R$ 20,0 ou R$ 30,0. Horário, 21h, de terça à quinta-feira. Fotos: Gustavo Mendes e Marcos Meneghessi, respectivamente.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

“O Filho da Mãe”, em bela performance, está de volta aos palcos


A reestréia aconteceu no último sábado (2), no Teatro Folha, em São Paulo. Eduardo Martini e Bruno Lopes trouxeram de volta aos palcos o fabuloso texto de Regiana Antonini, espelhando no teatro a fidedigna relação entre mãe e filho. Com emoção e humor Eduardo revela sua contínua impecável direção nas cenas.

O texto vem um pouco reduzido da temporada anterior, e desenrola a relação entre mãe e filho muito bem costurada por Regiana, que estampa sempre a marca familiar em seus roteiros. Eduardo Martini, que dirige e interpreta Valentina, não deixa de derramar ao deleite cômico da peça sua irreverência e ainda revela-se num estilo diferente do que ele apresenta em seus espetáculos, põe paixão e emoção nas expressões da mãe Valentina e emite uma voz súplica e antecipa as saudades do filho Fernando, interpretado por Bruno Lopes, que partirá para Nova York, onde estudará cinema. Valentina é separada do pai de Fernando, porém deixa sempre escapar a paixão que ainda tem pelo ex-marido, quando com a bela performance de Eduardo leva às inquietudes da personagem esse amor que está intrínseco no texto.

A iluminação de Marcos Meneghessi mantém as cores caseiras que são suficientes para qualquer apartamento, para acompanhar os momentos de emoção da peça ora a luz isola os atores formando uma cena, ora amplia-se para todo o palco. Os figurinos retalham cores bem ornadas, vestem bem às idades de cada personagem e deixam Valentina bem feminina, escondendo qualquer sinal masculino do ator. A costura elegante e bonita é assinada por Adriana Hitomi. Os óculos da Ótica Ventura, utilizados por Valentina, são de ótimo bom gosto. O cenário é preparado para um apartamento de classe média, desta vez sem a cozinha, que o deixava bem mais amplo. As paredes também foram reduzidas, por conta da altura do teatro, o que acabou prejudicando a beleza da cena, que deixa vazar o espaço preto das cortinas e perde a dimensão que havia entre a janela do apartamento e o cenário de fundo.

A trilha sonora contagia, na voz de Tim Maia, ídolo de Valentina, as músicas caem no humor e na emoção da peça, costurando as cenas e dando sentido ao contexto. Os atores entregam-se aos personagens de forma apaixonante. Na temporada passada do espetáculo, Bruno Lopes aprendia como ser um grande intérprete, hoje ele mostra sua serena desenvoltura, que brevemente se destacará ainda mais. Eduardo Martini, sem dúvidas, leva sua infância e vida para o olhar de sua personagem, assim como qualquer mãe identificaria o perfil comum de uma dedicada senhora da família. A voz não estava no melhor dos tons, enquanto os aplausos interrompiam o texto, os atores prosseguiam com as falas. A acústica do teatro, junto ao volume da voz dos atores prejudicava o bom entendimento do texto.

Um fato inesperado inibiu o prosseguimento da peça com a falta de energia que apagou o shopping Pátio Higienópolis, onde fica o Teatro Folha. Durante o tempo no escuro os atores improvisaram um papo com o público, o que levou-me à aplaudi-los em pé ao fim do espetáculo. A cena foi retomada pelos talentosos atores, que demonstraram imenso controle da situação. Ponto negativo para o teatro e o shopping, que de forma despreparada recebem os espectadores. Talvez ainda não conheçam a existência de um gerador, contentando-se apenas com luzes escassas de emergência.

Mais uma vez Yara Leite arrebata aplausos para sua produção, ao lado do assistente Bruno Albertini e da administração de Adriana Amorim. A comédia “O Filho da Mãe” ficará em cartaz até 27 de agosto, no Teatro Folha, localizado no bairro do Higienópolis, apenas aos sábados, às 20h. Os ingressos vão de R$ 40,0 à R$ 50,0 e podem ser comprados na bilheteria do teatro ou pelo ingresso.com na internet.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Wolf Maia tem nova página em seu pior script


Na última quinta-feira (9), o ator e diretor Wolf Maia foi condenado pelo crime de injúria, cometido em 2000, enquanto estreava a peça “Relax... It’s Sex”, em Campinas. O técnico de iluminação Denivaldo Pereira da Silva moveu uma ação contra o Wolf, alegando que foi vítima de racismo ao ter sido chamado de “preto fedorento que saiu do esgoto com mal de Parkinson”. O diretor foi condenado a dois anos e dois meses de prisão, mas pôde optar por indenizar o técnico em 20 salários mínimos e um período de trabalho comunitário. Será que alguém com tamanha tirania moral saberá motivar um trabalho à comunidade?

Wolf Maia tem uma escola de atores em São Paulo e recentemente participou da série “Lara com Z”, ao lado de Suzana Vieira. Não vou tecer nenhum comentário sobre alguns de seus fracassos, pois desta vez espero que a cultura volte-se contra ele. Wolf, em sua fala infame, mostrou-se incapaz de participar da cultura de um país miscigenado, ou até mesmo de dirigir uma escola de atores. Certa vez ouvi da sábia Dercy Gonçalves que escola não forma ator, uso suas palavras para acertar um “martelo” sobre os palcos de Wolf.

O papel de um diretor de teatro deve ser articular o espetáculo e conduzi-lo de forma harmônica. Como será que Wolf ensina os alunos a tratarem técnicos de iluminação? Segundo o diretor, a estréia não saiu como desejava, descarregando sua fúria pérfida na equipe. O fracasso de uma estréia deve-se em grande parte ao fracasso do diretor.

A arte de encenar tem perdido espaço para a arrogância e aos lucros financeiros. Peças sem sentido algum, nem um roteiro bem estruturado têm levado aos bolsos dos atores e diretores o prestígio, que poderia vir aclamado por aplausos do público. Espero que as platéias de Wolf migrem aos espetáculos devera culturais, pois drama se faz com respeito à história que o teatro pautou no tempo.

terça-feira, 17 de maio de 2011

“O Fantasma da Máscara”: musical adaptado com ótima brasilidade e humor


O Teatro Raul Cortez, em São Paulo, recebe a peça “O Fantasma da Máscara”, texto de Vitor Louis Stutz, com direção de Rosi Campos. O musical tem bela performance, dança e músicas coreografam muito bem o texto, além da linguagem clara, moderna e pueril.

Há tempos eu não via um texto infantil adequado à classificação livre, ultimamente tenho assistido coisas horríveis direcionadas às crianças. “O Fantasma da Máscara” trata com leveza um livreto dramático e clássico, da livre adaptação de O Fantasma da Ópera. O musical exibe cores reluzentes em figurinos e compartilha com o público um ótimo entusiasmo dos atores em cena. Rosi Campos, com o musical, explica a ideal forma de dirigir cenas voltadas ao lúdico infantil, o que deveria ser aplicado a outros diretores que, ao invés de colorir, assombram. O espetáculo teve um atraso de 30 minutos, que independente do motivo, não justificado, foi desrespeitoso e fora dos padrões que um espetáculo deve seguir.

Belinha, vivida pela atriz Cristina Cândido, que no dia substituiu Lisah Martins, é uma cantora lírica muito famosa, ela sofre um sequestro liderado por Dilma (Naíma), assistente do Fantasma. A cantora, no dia de seu aniversário, recebe um presente de seu irmão Zeca (Pedro Bosnich), comprado na loja de Pierre (Alexandre Pessôa), um francês ganancioso que dá início a série de confusões que caracteriza o humor do espetáculo. Beto Marden interpreta com modernidade o Fantasma da Máscara, usa de tiradas políticas, muito mais compreensíveis pelo público adulto, e protagoniza razoavelmente um tirano atrapalhado. No musical também participa a personagem Helena, vivida por Luciana Milano (standing), uma enfermeira que surgirá após o suspense do texto.

Cristina Cândido atrai por sua intensa voz, além de graça e concentração em cena, enquanto Beto Marden responde ao suspense com sucessivas cenas atrapalhadas e com um terror controlado para a classificação etária. Cacos e ironias podem construir bem um roteiro, desde quando tratados com rigor. Beto, em dado momento, menciona a personagem Dilma como “cachorrona”, fazendo alusão às letras de funk, porém este é um caco desapropriado para o texto, mesmo com a resposta cômica de Naíma, em sua personagem. Todos os atores envolvem-se bem ao texto e contracenam de forma correta, porém, o que era fundamental para Pedro Bosnich fica a desejar, falta mais fôlego à voz do ator, que destaca-se melhor na produção.

O autor das coreografias, que limitam-se a atores, e não retratam tanto balé e dança, é Jarbas Homem de Mello, que trabalha muito mais o movimento dos atores e deslocamentos no palco. O cenário de Ciça Gut é dinâmico e prático, visto que ao fundo do palco Osiris Junior implantou um cenário digital. Laura Figueiredo é responsável pelo ótimo desenho de luz, que infantiliza e envaidece o clima de suspense e humor proposto pelo espetáculo. Os figurinos de Livia Schurr e Pedro Bosnich, que também assina a direção de produção, refletem com beleza as luzes e colorem o palco movimentando perfeitamente as cenas, com a bela composição das maquiagens de Chloé Gaya. A trilha sonora de Charles Dallas e Walter Junior é memorável e muito bem ritmada.

O musical “O Fantasma da Máscara”, em cartaz no Teatro Raul Cortez, em São Paulo, tem duração de 70 minutos, perfeito para seu público. A realização da BM produções é apresentada pela Porto Seguro, assídua na cultura, e pela Fini. Os ingressos à R$ 40,0 (meia-entrada R$ 20,0) estão à venda na bilheteria do teatro ou pela internet com a Ingresso Rápido, para apresentações aos sábados e domingos, às 16h.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Onze Homens e Uma Sentença, agora sem Zé Renato


Onde eram Doze Homens, no drama de Reginald Rose, dirigido por Eduardo Tolentino, agora são onze, Zé Renato deixou a trupe para a poltrona do espectador. O homem que nos fez rir, hoje mistura o sorriso às lágrimas de saudades. Não veremos mais em cartaz José Renato Pécora, que nesta noite, quando ia para sua rotineira viagem ao Rio de Janeiro, faleceu antes mesmo de embarcar no ônibus. Zé Renato gostava de viajar de ônibus sempre pela noite, assim chegava ao Rio enquanto amanhecia o dia, este era um de seus grandes prazeres.

Zé Renato foi amigo da arte, fundador do Teatro de Arena ele voltou recentemente aos palcos com o espetáculo “Doze Homens e Uma Sentença”, recomendado e premiado. O ator fazia parte do grupo Tapa, que hoje sente a falta de um amigo, de um personagem que não terá mais a voz de um grande ator, de um homem que realizava a arte de encenar e a amava. Com 85 anos de idade, José Renato Pécora entrou para a enciclopédia do teatro, em 1958 Giafrancesco Guarnieri deu-lhe a direção de seu texto “Eles não Usam Black-Tie”, que falava sobre uma greve operária e fazia reflexões sobre o ser humano. Ainda passaram por sua direção textos de Augusto Boal, Nelson Rodrigues, Oduvaldo Vianna Filho, Chico de Assis e Dias Gomes.

O ator foi o primeiro aluno da Escola de Artes Dramáticas, em São Paulo, assim ao terminar o curso propôs o formato de arena para espetáculos. Zé Renato apresentava peças em ginásios e escolas e até atuou para uma platéia de ministros e o presidente Café Filho, no Palácio do Catete, a peça “Uma Mulher e Três Palhaços”, ao lado de Eva Wilma e grandes atores, que ganhou duas páginas no Jornal O Cruzeiro. Ele ainda foi ousado, e administrou o Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, que hoje vive seus dias de pena.

Zé era um boêmio de músicas, de piadas e de rir delas. Um infarto o levou para a platéia eterna, onde outros grandes atores aguardam que se abram cortinas para mais respeito e dedicação ao teatro. Algum tempo antes de sua morte, Zé Renato foi ao programa do Jô, onde aclamava patrocinadores a peça “Doze Homens e Uma Sentença”, em cartaz no Teatro Imprensa, em São Paulo, com temporada prevista até Junho.

Zé Renato completava o verdadeiro “teatro de atores”, era o ator que se impunha ao centro de uma arena para encenar a sua volta, permitia com sua idéia, similar a um picadeiro, que todos pudessem visualizar o espetáculo em todos os ângulos, popularizando a arte da cena. Ao engenheiro do teatro, ao sorriso do humor e ao sentimento do drama ficam meus aplausos em luto.

sábado, 2 de abril de 2011

Maria Bethânia empresta a voz para a música e a poesia


Acompanhada de Jaime Alem, no violão e Carlos César, na percussão Maria Bethânia volta aos palcos do teatro emprestando a voz às palavras. Música e poesia costuram uma leitura ininterrupta, “Iansã” é saudada no início da leitura pela canção de Gil e Caetano, enquanto o som do atabaque ascende ao palco com luzes delineando “Bethânia e as Palavras”. A leitura foi criada na Universidade Federal de Minas Gerais, especialmente para mestres e alunos de escolas públicas. Entre tantas lindas palavras, exaltações à educação resumem a intenção do espetáculo, junto ao resgate aos tão importantes e nobres poetas.

Vestindo casaco branco, celebrando Mãe Menininha do Cantuá, sobre o vermelho de Santa Bárbara, Maria Bethânia une todos os seus grandes poetas para conversarem ao som do batuque, da viola e de seu inigualável timbre. Seus três reis magos, Guimarães Rosa, Fernando Pessoa e Dorival Caymmi encontram-se em músicas e poesia, versos e citações, cruzando entre Brasil e Portugal, além do São Francisco de Roberto Mendes e Capinam, em Águas e Mágoas de Carlos Drumond de Andrade. Passeando pelos trilhos da literatura Villa Lobos e Ferreira Gullar fazem a voz de Bethânia vislumbrar o “Trenzinho Caipira”, com o “Comboio Malandro”de Antônio Jacinto, “Vou danado pra Catende”, de Ascenso Ferreira e “Trem de Ferro”, de Manuel Bandeira.

Dona Canô é homenageada com sua imagem projetada ao fundo do palco, onde o único cenário de Bethânia é a voz, pois para uma intérprete se faz necessário o timbre que lhe contempla. “E Depois de uma Tarde”, de Clarice Lispector finda a noite poética junto aos heterônimos de Pessoa, às canções de Chico Buarque e os arranjos fantásticos do maestro Jaime Alem. Encontrar com “Bethânia e as Palavras” é estar aos batuques de uma festa na casa de mãe Canô em Santo Amaro da Purificação, para quem esteve a “Ladainha de Sto. Amaro”, poema de sua irmã Mabel Veloso, é capaz de nos fazer ouvir e caminhar pelas ruas do recôncavo baiano sobre os ladrilhos e terras.

Os poetas Castro Alves e Vinícius de Moraes explodem amores e pátria no mesmo cenário de Moraes Moreira, que fala de Luzia, de Lusíadas, e da canção “Sonhei que estava em Portugal”. Bethânia revela-se poeta e compositora, conta através de versos próprios sua vida em Santo Amaro, na família e na escola. O “Berimbau”, de Manuel Bandeira e “João Valentão”, de Caymmi santificam a Bahia em nossa história. “Romaria”, de Renato Teixeira e “Cálice Bento”, vestem o “Poema do Menino Jesus”, de Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, capaz de tocar e enxugar lágrimas de emoção.

“Uma Canção Desnaturada”, de Buarque, “Quero Ser Tambor”, de Craveirinha, “O Poeta Come Amendoim”, de Mário de Andrade, “Jenipapo Absoluto”, de Caetano Veloso e “Abc do Sertão”, de Luis Gonzaga completam o livro de poesias de um dos mais lindos espetáculos que eu já vi em todos os tempos. A Icatu Seguros patrocina a leitura “Bethânia e as Palavras”, incentivada pelo Ministério da Cultura. As notas dos violões e o embalo do atabaque abrem aos orixás o templo de Maria Bethânia e seus versos, aos educadores e educandos, e a todos os amantes das palavras. A canção “Ronda”, de Paulo Vanzolini despede-nos de toda poesia e música. A leitura esteve em cartaz por três dias no Teatro Faap, ao preço de R$ 60,0 ou R$ 30,0 meia entrada, ou mediante doação de um livro. Bethânia segue com o espetáculo para Porto Alegre e Curitiba. Foto: Daniel Marcusso; Foto: Divulgação; respectivamente.