terça-feira, 15 de maio de 2012

Mariana Muniz mostra outro lado da fala e movimento em “2 Mundos”


O espetáculo reestreou no último sábado (12), em São Paulo, na Sala Paschoal Carlos Magno, do Teatro Sérgio Cardoso, trazendo ao público a oportunidade de sentir a dança e a expressão, mediados pela intérprete Mariana Muniz. Em “2 Mundos” é possível encontrar o silêncio fundido ao som da música e poesia, e o dialeto da Língua Brasileira de Sinais.

Mariana Muniz recheia o palco com uma intensa movimentação corporal, vibrando o som em seu próprio eixo, dependendo apenas da própria flexibilidade. O teatro físico materializa-se no espetáculo em movimentos abstratos e de uma qualidade sensorial belíssima. Mariana soletra o alfabeto em LIBRAS e vai permitindo que o som penetre em seu corpo, a trilha é apropriada para envolver o público, fazendo com que possamos sentir a vibração dos sintetizadores e batucadas. A canção “Gostoso Demais”, de Nando Cordel e Dominguinhos, é interpretada por Mariana, tanto em LIBRAS, quanto pausadamente em voz, poetizando ainda mais a música. Toda a didática exposta na Linguagem de Sinais, torna o lirismo do espetáculo ainda mais  ritmicamente belo.

O espectro de “2 Mundos” surge do corpo de Mariana Muniz, figuras são desenhadas através de seus movimentos, e o silêncio é tracejado por palavras trazidas por gestos. A fala ainda é insuficiente para que o ser humano possa se expressar, e para os surdos e mudos a maneira mais rápida de comunicação é o gestual. São as mãos que os permitem falar, e que os tornam ainda mais expressivamente sensíveis. A atriz emite sons, exprime a tentativa de calar o silêncio com sua voz, e deixa claro que o movimento pode tornar o silêncio ainda mais apropriado. Entrar numa sala de teatro, após atravessar a cidade de São Paulo cheia de seus barulhos e ruídos, e ouvir o silêncio agregar-se ao som que nos vibra mentalmente e muscularmente, é, no mínimo, necessário e especial. Mariana lembra-me muito a intérprete Maria Bethânia, sua maneira de articular, de gesticular, de poetizar, além da forma costumeira de olhar do palco, e enquanto ajeita-se em cena, e fora dela. E isso é muito grande, não quero duplicar sua identidade, e sim enaltecê-la. 
A deficiência na audição e na fala não estão necessariamente ligadas, muitos dos mudos não exercitaram a voz, e por esse motivo têm a perda da emissão de sons. Esse é um campo que deve ser explorado por um fonoaudiólogo, para identificar as possibilidades. Na Idade Antiga os surdos e mudos eram, em muitos casos, tratados como dementes, e às vezes até venerados como favoritos dos deuses, o que era mais ocorrente na Pérsia e no Egito. Na época renascentista, apóstolos preocuparam-se em integrá-los à sociedade.  Em meados no século XVI, o matemático e médico italiano Jerônimo Cardan foi pioneiro em criar possibilidades práticas de educar os cegos e surdos-mudos. Cardan também foi requisitado como médico pelos reis Cristiano III, da Dinamarca, e Eduardo VI, da Inglaterra, e como matemático desenvolveu a fórmula para resolução das equações de terceiro grau. No século XVIII, o abade francês, Charles Michel L’Epée fundou o primeiro colégio para surdos-mudos, e ensinava os alunos por meio de mímicas, utilizadas durante anos, que descreviam letra por letra do alfabeto. No ano de 1856 o sistema de sinais, já mais aperfeiçoado, chegou ao Brasil junto ao conde francês Huet, que era surdo. Esse sistema foi universalizado e tornou possível que pessoas de nacionalidades diferentes se comunicassem, por indicarem letras, além disso, os sinais também representavam os desejos das pessoas. O médico americano Orin Cornett, em 1966, associou a linguagem de sinais à leitura labial, melhorando o entendimento. Hoje, cada país tem sua própria linguagem de sinais, porém todas derivam do método francês e alteram apenas de acordo com variações ortográficas regionais. Aqui no Brasil é conhecida como LIBRAS. O pianista Ludwig van Beethoven, foi um dos artistas mais sofridos da história, além de viver problemas conjugais e familiares, de perder muito cedo os irmãos, perdeu a audição e mesmo assim compôs famosas e belíssimas sinfonias. O pintor francês Goya, portador de uma doença então desconhecida, ficou parcialmente paralítico e cego, e totalmente surdo, enlouquecendo por conta disso, ainda pintou espetaculares quadros, muito valiosos. A sensibilidade é o melhor ângulo e a incrível forma de olhar, seja de um surdo, mudo, ou cego.

Mariana Muniz demonstra o emocionante ato de comunicar-se em LIBRAS, falo em ser emocionante, pela exclusão que ainda há deste assunto por aqui. É muito raro encontrar espetáculos realizados com tanta sensibilidade e preocupação em abranger a um amplo público, que não fica restrito apenas aos surdos-mudos, pois há sons e falas também. É raro ver o teatro especular as diferentes formas de linguagem, e na dança isso fica espetacular e harmônico. A descrição de peças em palavras ainda é muito complicada, pois ler muitas dessas palavras, para os surdos é algo muito difícil, a muitos não é possível ouvir a sonoridade das sílabas, portanto rígidas de interpretar. Na cidade de Tel Aviv, em Israel, há um grupo formado por atores portadores de deficiência auditiva e visual, o Nalaga’at, que apresenta-se em diversos países. Este mesmo grupo, em 2007 inaugurou um café com garçons surdos e um restaurante com servidores cegos. Isso é um exemplo para muitos países, principalmente ao Brasil, que ainda depende de ONGs para iniciativas sociais, que ainda sim são insuficientes.
O espetáculo “2 Mundos” é um resumo do sentimento de um surdo e mudo, é o grito registrado em gestos, é um ato sensorial de transformar um palco em expressão. A iluminação, de Ricardo Bueno, restringe-se em três cores, e marca muito bem o palco, com efeitos pontuais. A direção de Cláudio Gimenez é uma grande surpresa de cenas, pois é difícil prever qual pernada, qual braçada, qual emissão de som virá suceder a outra. A supervisão geral é de Eduardo Tolentino de Araújo, que encontra no palco um exemplo de aproveitamento e visão de roteiro. O som, que é uma das perfeitas assinaturas do espetáculo é obra de Ricardo Severo. O figurino versátil é de Tânia Marcondes. Carlos Avelino de Arruda Sampaio fez a assessoria técnica em LIBRAS, enquanto a Cria da Casa cuidou da produção.

Até o próximo final de semana, 19 e 20/05, é possível assistir “2 Mundos”, na Sala Paschoal Carlos Magno, do Teatro Sérgio Cardoso, às 19h. O preço é super popular, com a inteira por 15 reais.  É bom assistir, eu recomendo que lotem a intimista sala, o público está perdendo a oportunidade de conhecer um mundo além do seu. Eu fui emudecido enquanto assistia, e saí de lá com lágrimas nos olhos e um sorriso no rosto.

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