segunda-feira, 17 de junho de 2013

A verdadeira bomba de efeito moral


São incontáveis os shows de Gal Costa que já assisti, porém, no último sábado, quando ela apresentou o show “Recanto”, em São Paulo, a inquietude tomou conta de mim e de última hora levantei-me e resolvi ir até o show. Comprei em cima da hora e entrei. Gal estava inexorável. Do meio de sua voz, veio do público um grito “vem pra rua, vem”. São Paulo, que vive um montante de protestos legítimos, dava o salvo da atualidade frente a cantora dos mais gloriosos tempos após emprestar-lhe a voz à “Neguinho”, canção de Caetano que aqueceu a ocasião. Como era antes! A resposta foi a que marcou-me de maneira mais inigualável possível, Gal disparou: “protesto aqui é através da letra da canção.” E seguiu cantando...


Resolvi refletir sobre isso, usando a música. Onde vamos parar com a revolta do Estado? Mais uma vez, o governo se arma e tenta domar o povo como insossos. O Brasil nunca esteve dormindo, apenas engolindo sapos!

Parece que mais uma vez vivemos a revolta de uma “contrarrevolução”,  os franceses lutaram, os cubanos lutaram, os ingleses e os russos também, até os americanos lutaram. O brasileiro cantou, e de armas na boca gritava. Quem não ouviu a ditadura no rádio?

Eles entregam flores e recebem balas, pedem um abraço e levam porrada, pedem paz e ganham a guerra! Fogo, tiro... eles batem os cassetetes nos escudos, os pés no chão, empinam os fuzis e gritam feito ferozes treinados: tal qual os sons que ensurdeceram gente na Ditadura Militar.  1964 outra vez!

Minha Nossa, o que estão fazendo? Os jovens? Ah, lutando por seus direitos! Os policiais? Impedindo o exercício do direito, apoiando-se em represálias. Não concordo com a quebradeira dos bens públicos, mas o Estado não é um bem público, quis apenas, no tempo, tornar-se um mal necessário. Ordem e Progresso! Só na bandeira. Manto, que aliás, nem os militares respeitam. Vi gente ser presa com a bandeira no corpo. É lei, respeitar o manto.

Não aguento mais ver o Datena falar como se fosse jornalista, prendendo os órgãos genitais em cima de um muro. E o Arnaldo Jabor, nunca foi meu porta-voz. Nem do Brasil!

O que me indigna é que muitos dos políticos que foram postos a ponta pés pra fora do Brasil, que foram calados, hoje, estão posando de militares. É a contrarrevolta?!

A Dilma vaiada num estádio. Mas, eu me pergunto, o que faziam lá vaiando a presidenta? Pagam caro num ingresso para o jogo, frequentam o estádio superfaturado e sentem-se no direito de irem contra algo em que os próprios fazem parte? É legal, mas ou eu vou ao estádio, ou eu vaio a presidenta. Eu vaio a presidenta!

Não são 20 centavos a mais, são todos os impostos que roubam a nossa liberdade financeira. Lembram do pãozinho? Uma vez eu voltei à padaria com todas as balinhas que recebia de troco (no lugar do 1 centavo) e paguei o pão com as balinhas. Resultado, subiram o preço do pão e extinguiram o 1 centavo.

Não vivi as guerras, não vivi a Ditadura. Mas estão editando os capítulos de um novo tempo do descaramento do Estado. O governo tem polícia! Nós, temos voz.

Quando Gal disse no sábado em seu show: “aqui protestamos com música”, entendi mais ainda a genialidade de quem lutou pela nossa liberdade e com os mesmos sons relutam essa liberdade. Não demorou muito, após essa fala, e seguiu o repertório, com o retrato dos tempos, “O Amor”, “Baby” e Vapor Barato”!

Quem não conheceu Julinho da Adelaide? A censura era de uma ignorância tamanha que não o conhecia... deixou-nos passar as mais intensas canções de Chico Buarque. A censura de hoje é contra a voz, e sofre da mesma burrice!

Não digo nada além disso... a música que ilustrou o passado pode muito bem armar as mãos e a boca do presente:

“Por entre fotos e nomes. Sem livros e sem fuzil. Sem fome, sem telefone, no coração do Brasil.”
(Alegria, Alegria, Caetano Veloso)

“Por isso cuidado meu bem, há perigo na esquina. Eles venceram e o sinal está fechado pra nós, que somos jovens.”
(Como Nossos Pais, Belchior)

“Mamãe, mamãe, não chore. A vida é assim mesmo. Eu fui embora.”
(Mamãe Coragem, Caetano Veloso)

“Pois temos o sorriso engarrafado.”
(Parque Industrial, Tom Zé)

“Você vai, eu fico. Você fica, eu vou. Por uma questão de ordem. Por uma questão de desordem.”
(Questão de Ordem, Gilberto Gil)

“Há soldados armados. Amados ou não. Quase todos perdidos, de armas na mão.”
(Pra não dizer que falei das flores, Geraldo Vandré)

“Como é difícil, Pai, abrir a porta.”
(Cálice, Chico Buarque)

“Que sonha com a volta do irmão do Henfil, com tanta gente que partiu num rabo de foguete. Chora! A nossa Pátria Mãe gentil.”
(O Bêbado e o Equilibrista, Aldir Blanc e João Bosco)

“Porque você mata uma e vem outra em meu lugar.”
(Mosca na Sopa, Raul Seixas)

“Acender as velas já é profissão.”
(Acender as Velas, Zé Keti)

“Sonhei que tinha gente lá fora batendo no portão, que aflição. Era a dura, numa muito escura viatura.”
(Acorda Amor, Chico Buarque)

“É proibido proibir.”
(É proibido Proibir, Caetano Veloso)

“A família protegida. Um palavrão reprimido. Um pregador que condena. Uma bomba por quinzena.”
(São, São Paulo, Tom Zé)

“É preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a morte.”
(Divino Maravilhoso, Caetano Veloso e Gilberto Gil)

“Eu estou tão cansado, mas não pra dizer que eu estou indo embora.”
(Vapor Barato, Waly Salomão)

“Paz no futuro e glória no passado.”
(Hino Nacional Brasileiro, Joaquim Osório Duque Estrada)

“Podem me prender. Podem me bater. Podem até deixar-me sem comer, que eu não mudo de opinião. Vinte centavos eu não pago não.”
(Opinião, Zé Keti adaptada por Elza Soares)

E em pleno ano de 2011, Caetano Veloso compõe a seguinte canção pra Gal:

“Nego abre banco, igreja, sauna, escola. Nego abre os braços e a voz. Talvez seja sua vez: Neguinho que eu falo é nós.”

As pessoas usam lenços, camisas, panos sobre o rosto, não para esconderem a face. Mas pra se preservarem da covardia dos gases. E vocês, policiais? Onde estava a identificação de muitos de vocês. Soldado sem nome, é soldado sem honra. Honra, não é fruto de sangue. Sangue é coisa de humano! Vocês, sabem o que é humano?

Em resumo, a bomba de efeito moral não é a que a polícia joga com as mãos esquivas atrás do escudo. Moral tem um efeito muito além e mais humano do que isso. É mais fácil cegar um jornalista do que permiti-lo ver e contar a verdade. Não é o vinagre! Não é o jornalista! Não é o estudante!

O problema do Governo é o povo! 

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